Análise das cores em O Fabuloso Destino de Amelie Poulain

Análise das cores em O Fabuloso Destino de Amelie Poulain

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Blog - Psicologia das Cores
- 26/12/2018 15:17:43

         
          Depois de apresentar e estudar as cores verde e vermelho em dois filmes, chegou a hora de trazer um terceiro filme para abordar e discutir essas duas cores. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é o filme perfeito para apresentar o vermelho e o verde de uma forma positiva, ainda não exposta aqui anteriormente. Dessa vez vamos perceber o verde da imaturidade e o vermelho do amor; não mais do veneno e do perigo como vimos em Matrix e 2001: Uma Odisseia no Espaço, respectivamente. Através do filme de Jean-Pierre Jeunet, será possível desconstruir que uma cor possui apenas um significado engessado e entender que o significado da cor depende de outros fatores como o enredo, a apresentação da cor e o acorde cromático.

           Amélie Poulain é uma jovem francesa que passa a ajudar as pessoas com pequenos gestos e ganha uma nova visão do mundo, vendo nisso um novo sentido para sua vida. Mas mesmo contribuindo para a felicidade dos outros, Amélie sabe que ainda falta um amor que a complete. A apresentação narrada em off sobre a personagem diz que “O tempo não mudou nada. Amélie continua buscando a solidão”. Porém, como a personagem transforma sua solidão em boas ações para com os outros, o longa é acompanhado por uma carga otimista.

              As principais cores do filme vieram de uma inspiração brasileira. Juarez Machado, catarinense, radicado na França desde 1986. Segundo o artista, o diretor do filme fez uma visita em seu atelier em 2000. “A primeira coisa que ele fez foi comprar um quadro meu, de uma mulher agarrando um homem na escada. Ele adorou a minha paleta, que não tem tantas cores primárias, uso sempre tons mais fechados. Então o Jeunet me pediu livros, imagens, tirou fotos e levou para a equipe dele.” O pintor ainda revela que no quarto de Amélie, ao lado da cama, tem dois quadros dele, batizados de “A Festa Continua”.

              

 

               A paleta de cores do filme se concentra no uso do vermelho e do verde em quase todos os quadros do filme. Além disso, o diretor optou por adicionar pontos azuis na imagem, com intenção de definir o contraste. Nas cenas, o azul não possui nenhuma função informativa ou sensorial. Nesse caso, entendemos o azul somente como uma cor apaziguadora, quase que aliviando a tensão das outras cores tão fortes e dominantes. Às vezes esse ponto de escape chega através um abajour ou mesmo um carro.

             Assim como Matrix, o filme francês também possui um filtro em suas imagens. Mas, nesse caso, a cor escolhida para tal função foi o amarelo. É fácil notar que existe uma luz difusa, suave e amarelada durante todo o decorrer do longa metragem. Essa luz é aparentemente criada pelo céu iluminado, mas nublado. Esse tipo de iluminação, amarelada e com uma sensação de calor, reflete a atitude geral de Amélie sobre a vida, uma atitude nada fria. Esse tom amarelo que a obra traz contribui para o otimismo do filme. Isso ocorro pois é a cor que identificamos como o sol, então associamos o amarelo como uma poderosa energia vital.

            Um acorde cromático é composto por cada uma das cores que esteja mais frequentemente associada a um determinado efeito. Tão importantes quanto a cor mais citada, são as cores que a cada vez se combinam a ela, pois o  acorde cromático determina o efeito da cor principal. Assim, entendemos que não é uma combinação aleatória de cores, mas um efeito conjunto imutável. No estudo da psicologia das cores, a alegria é representada pela combinação do vermelho, amarelo, laranja e verde. Cores, essas, muito presentes no filme francês.

            Todos os personagens apresentados na sequência inicial do filme estão com tons de verde e/ou vermelho ou possuem objetos de importância vermelhos – como a caixa de ferramentas de Raphael Poulain e a bolsa de Amandine Poulain, ambas vermelho. Na apresentação, tanto o pai quanto a mãe de Amélie gostam de esvaziar sua caixa de ferramenta e bolsa, limpar e depois guardar tudo de volta. Os dois elementos conectam os personagens, não só pelo ritual do procedimento, como pela cor dos objetos.

 

              O verde, por sua vez, é uma cor ambígua, pois é “a cor do meio”. Segundo a lei da perspectiva das cores, o vermelho dá impressão de proximidade, o azul de distância e no meio fica o verde. Por ser uma cor intermediária, o verde pode se revelar com significados positivos e também negativos. O verde é a cor dos vegetais frescos e da carne estragada, pode sinalizar saúde e vitalidade ou perigo e decadência. Vimos a segunda possibilidade no post sobre o filme Matrix (Análise do verde em Matrix), agora vamos ver como o filme de Jeunet explora o verde em seus melhores significados.

               No filme, o verde representa a dualidade e a imaturidade dos personagens, mas não de uma forma pessimista ou ruim. A dualidade se dá quando entendemos que todos nós somos duplos em nossa própria natureza. No início, Amélie parece viver uma vida vazia; calma, sem graça e sozinha. Mas, ao encontrar uma caixa com lembranças de um morador de seu apartamento de 40 anos atrás e decidir encontrar o dono, Amélie descobre uma outra forma de viver: ajudando as pessoas e alegrando suas vidas.

               A imaturidade, por sua vez, faz parte da vida. O processo da maturação na natureza pode compreender vários estágios, do verde ao amarelo até chegar o vermelho; do verde ao vermelho até chegar ao azul e ao preto; do verde ao marrom. Porém, não existe nenhuma planta ou flor que percorra o caminho inverso; o estágio da imaturidade é sempre verde. Amélie possui certa imaturidade com Nino devido à situação que ela cria para poder devolvê-lo o álbum de fotografias e enfim se aproximar dele.

              Nino, por sua vez, é imaturo com sua coleção de fotos 3x4 e, principalmente, com relação ao chamado “homem misterioso” – rapaz que conserta as cabines de fotografia e, para conferir se está funcionando, tira uma foto, depois rasga e joga no lixo. Nino, que trabalha em uma sex shop, em um trem fantasma e coleciona fotos instantâneas descartadas pelas pessoas, possuía uma vida igualmente sem graça. Assim como Amélie, ele tenta descobrir algo que faça sua vida ganhar mais sentido. Para ele, é descobrir quem é o homem que mais aparece em seu álbum.

              O verde ainda possui um papel importante com relação a esses dois personagens. Assim como na natureza, os sentimentos também se desenvolvem e crescem. Na poesia dos trovadores, o verde é a cor do amor que desabrocha. Amélie se apaixona por Nino a primeira vista, ao vê-lo abaixado no chão do metrô. O verde representa não só o amor precoce dos dois personagens, mas a esperança de que suas vidas se encontrem e eles sejam verdadeiramente felizes. A esperança é um sentimento de que os tempos de privação estão ficando para trás. Segundo um ditado, quanto mais duros os tempos, mais verde é a esperança. Ou seja, eles finalmente viveriam um amor.

              No filme, podemos perceber que quando Amélie e Nino finalmente se encontram e se beijam, no apartamento da jovem, os dois estão vestindo verde, um bolero e um casaco, respectivamente. Ao fundo, o ambiente avermelhado representa a liberdade dos personagens. Os dois, que nunca se olharam nos olhos, têm essa oportunidade pela primeira vez. Com muita calma, Amélie dá um beijo no canto da boca, no pescoço e na sobrancelha. Em seguida, Nino faz o mesmo, repetindo os lugares. O vermelho é a cor simbólica de todas as atividades que exigem mais paixão do que compreensão – enquanto o azul é racional, o vermelho é uma cor impulsiva. Percebemos, então, que as cores verde e vermelho, refletem, nessa cena, a transformação do amor, que antes era precoce e imaturo.

              O vermelho, ainda, se combinado ao verde e ao ouro (amarelo), significa felicidade e sorte. Como dito, o filme é acompanhado por uma carga otimista, principalmente por causa do amarelo. O filme francês tem um tom amarelado que, junto ao vermelho, transmite essa sensação. No livro A Psicologia das Cores, de Eva Heller, lemos que para que o amarelo atue tão alegremente, ele precisa sempre da companhia do vermelho e do laranja. Amarelo-laranja-vermelho é o tríplice acorde típico do prazer e de tudo que o cerca. O pintor Eugène Declaroix já havia percebido isso no século XVIII, citando “Todos sabem que o amarelo, o laranja e o vermelho transmitem e representam ideias de contentamento e riqueza.”

 

              Além disso, a tríplice representa as cores do fogo, das chamas e, portanto, as cores do calor. O Vermelho-laranja são também as principais cores da paixão, do “sangue fervente”, pois, como o fogo, a paixão também pode “queimar” e “consumir”.

              Em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, o vermelho tem seu significado positivo explorado, pois ele é combinado com cores que ressaltam esses aspectos. O vermelho é a cor que transita entre o amor e o ódio e para transformar o vermelho do amor em ódio, ele precisa estar acompanhado do preto – acorde cromático que não se revela no filme francês. É nesse acorde que o filme de Jeunet se distancia do filme de Kubrick, 2001: Uma Odisséia no Espaço.

              Em termos visuais, o vermelho sempre se projeta e soa barulhento. O vermelho de Amélie e 2001 também se diferenciam aí. No filme francês, a temática, o acorde cromático e a atmosfera do filme fazem com que o “vermelho negativo” não chegue ao espectador. O filme americano, por sua vez, constrói uma atmosfera de tensão desde o início, trazendo elementos de perigo através de mensagens de erro e botões vermelhos, além de combinar a cor ao preto.

              Em uma frase Heller desmistifica a diferença entre o vermelho de Jeunet e Kubrick. Através de outras cores no acorde e tons, entendemos que “o vermelho do amor unido ao rosa transmite inocência, unido ao violeta tem um efeito sedutor. Junto ao preto, o vermelho adquire um significado negativo, transmitindo agressividade e brutalidade.” Assim, claramente constatamos que a inocência de Amélie está unida ao rosa e a agressividade de 2001 está unida ao preto. O vermelho de Kubrick está sempre rodeado de elementos pretos, mesmo que sejam sombras. A sombra, por ser escura, traz o preto para o acorde cromático e contribui para a ressignificação do vermelho.                     

 

              Assim como o vermelho de 2001 se distancia do vermelho de Amélie, o mesmo se dá com o verde. Em Matrix e no filme francês, podemos perceber como o verde se porta ao olharmos para as cores em volta. A paleta de cores da Trilogia Matrix é repleta de verde e o acorde é sempre apresentado com um ar sombrio, enquanto o de Amélie se atrela à tríplice da felicidade.

              Em Amélie, o verde explora sua melhor faceta. Ali, o verde representa renovação, esperança e amor precoce. Em Matrix, como explorado no post, as palavras que definem o verde são outras: dualidade, corrupção e decadência. Só através das palavras percebemos que o verde vem acompanhado de uma carga muito mais negativa. No filme, o filtro esverdeado das cenas ajuda que o espectador fique completamente imerso nesse mundo corrompido.

             O verde de Matrix, assim como o vermelho de 2001, está sempre acompanhado ao preto. A maioria dos personagens que entram na Matrix possuem figurino preto; o que dialoga muito com o filtro verde proposto pela direção do filme. Essa é uma das razões pela qual o Departamento de Arte é muito importante em uma produção audiovisual. A cor do figurino pode influenciar em sentimentos e emoções e é interessante que isso dialogue com a natureza do filme e possa contribuir com a narrativa. Caso contrário, seria uma confusão de informações: diálogos passando uma mensagem, cenário outra, figurino outra, e assim por diante. Importante, também, é perceber as variáveis da mensagem e do comportamento humano com relação à mudança de tom.

             Enquanto o tom de Matrix se aproxima mais do preto na escala de tons e possui uma carga escura, Amélie é mais claro e brilhante. O mesmo se dá entre o vermelho do filme de Jeunet e o de Kubrick. Visualmente falando, um filme pode ser mais positivo que o outro por conta dos tons de cor que se utilizam; e é justamente o que acontece entre os tons da Trilogia Matrix2001: Uma Odisséia no Espaço e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

            Muito dessa alteração de informação através dos tons só chega pelo o espectador através de mensagens inconscientes, pois não conhecemos muito sobre esse fenômeno e nem os estímulos que ele pode apresentar. Segundo Heller, uma regra básica da psicologia da percepção é que vemos sempre somente o que sabemos. Ou seja, quanto mais soubermos a respeito da psicologia das cores, mais cores vamos passar a ver, pois nós conhecemos muito mais sentimentos do que cores.

            Além disso, cada cor pode produzir muitos efeitos, frequentemente contraditórios, visto que cada cor atua de modo diferente, a depender da ocasião. Além da aplicação de diferentes tons de uma cor, a impressão causada por cada cor é determinada por seu contexto, ou seja, pelo entrelaçamento de significados em que a percebemos. A cor num traje será avaliada de modo diferente do que a cor num ambiente, num alimento, ou na arte.


            Gostaram do especial de Natal? Amélie Poulain não é um filme natalino, mas suas cores com certeza são! Além do verde e do vermelho, conta com o amarelo como toque final da árvore!

            Na próxima quarta teremos um novo filme para analisar a cor. Qual filme você quer para a primeira análise de 2019? Manda sua sugestão nas redes sociais e fique ligado no instagram @rosebud.club, contamos com a sua votação para a próxima análise!


 

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