Análise do Amarelo em Kill Bill

Análise do Amarelo em Kill Bill

Postado em:
Blog - Psicologia das Cores
- 03/01/2019 01:04:23


     Apesar de Kill Bill ser um filme repleto de cenas onde o amarelo chama a atenção, a cor é mostrada de forma contida, através de objetos, indumentária e cenografia. Além do clássico figurino de Beatrix Kiddo, a cor também está presente em sua moto e caminhonete. Em todas as cenas que existe intenção de vingança partindo da personagem principal, existe um elemento amarelo – às vezes chamativo como seu traje e às vezes discreto como a parede da casa de Vernita Green. O amarelo é a cor mais ambígua, pois basta uma simples gota de outra cor que temos uma cor completamente diferente. Por ser uma cor tão instável, o amarelo não é uma cor que transparece segurança. Além disso, assim como o amarelo pode ser a cor do otimismo, também pode ser a cor da irritação, da hipocrisia e da inveja. Tudo vai depender de qual cor se junta a ela. Em Kill Bill, essa cor é o preto – o que transforma completamente o sentido brilhante e iluminado do amarelo.

     Como falamos no post sobre 2001, o acorde cromático do ódio é composto por três cores: vermelho, preto e amarelo. Outros acordes onde vemos o amarelo ao lado do preto são: inveja, ciúme, vingança, hipocrisia, infidelidade, egoísmo, mentira, ódio. Conhecendo a história de Kill Bill, podemos facilmente associar alguns desses sentimentos à narrativa do filme. No filme de Tarantino, o amarelo está ligado ao ódio, vingança e traição. Em nenhum momento conseguimos esquecer essas palavras. Mesmo que não tenhamos consciência, esse sentimento é passado aos espectadores a cada cena através do figurino de Black Mamba, seus cabelos, sapatos, sua moto, caminhonete e até mesmo o sangue. A Pussy Wagon, por exemplo, é amarela por fora e completamente vermelha por dentro – assim, temos dois momentos: quando o diretor mostra o veículo por fora e quando é mostrado por dentro. Diferente disso, o figurino da personagem conta com as três cores do acorde do ódio: amarelo como a cor dominante, a listra preta e o vermelho a medida que Beatrix mata e o sangue mancha sua roupa.

 

     Logo no início do filme temos a cena entre Beatrix Kiddo indo até a casa de Vernita Green. Apesar do filme abusar do amarelo, essa cena contém muitas cores. Claro que o amarelo está presente na parede da cozinha, cômodo onde Vernita é morta, mas não podemos deixar de notar que a casa possui portas e janelas roxas. O roxo não é uma cor simples: é a cor que une os opostos e uma das cores mais raras de se encontrar na natureza. Por ser uma cor antinatural, o violeta se tornou uma cor mística. Essa cor é vinculada tanto à fé, como à superstição. É uma cor enigmática e ambígua e por ter esse caráter espiritual e místico, o roxo também é associado à morte. No cinema, muitos filmes se utilizam do roxo para mencionar uma morte iminente

     Além da porta, o roxo também está presente no sofá da sala, onde ocorre a primeira parte da luta. Nesse cômodo, todas as paredes são pintadas de azul. Assim como o casaco de Vernita, azul com uma listra branca e uma listra mais grossa preto. Apesar de ser uma cor fria, não existe nenhum simbolismo ruim atrelado à cor azul. O branco-azul-dourado são as cores da verdade, do bem e do ideal. Vernita alega à Beatrix que ela não é mais a mesma de quatro anos atrás. Nesse caso, podemos entender o figurino de Vernita como essa transformação, através do azul e do branco. Porém, a listra preta representa todo seu passado. Mesmo que ela tenha mudado, seu passado ainda existe em algum lugar. Vemos isso quando as duas estão na cozinha e a situação está aparentemente sobre controle. Apesar de terem combinado um duelo em um campo de baseball às 2h30 da manhã, Vernita pega uma caixa de cereal e atira em Beatrix. Ainda que ela tenha feito isso por razões diferentes de anos atrás, não à mando de Bill mas por conta de sua filha Nikki, é possível reconhecer o passado obscuro de Copperhead.


     Sobre a personagem principal, é notável que nessa cena ela ainda não esteja vestindo a clássica roupa da capa do filme. Pelo contrário, veste uma roupa bem básica: jeans, blusa vinho e uma jaqueta de couro marrom. O figurino amarelo se torna recorrente após seu encontro com Hattori Hanzo, também é quando ela passa a usar a espada de samurai em todas as lutas. Amarelo-preto é um dos acordes mais negativos, mais até que os associados ao vermelho-preto. Isso porque o acorde vermelho-preto é o mal que deriva das paixões, enquanto o amarelo-preto é o mal premeditado. O acorde amarelo-preto faz mais sentido para o filme por conta disso. Além do caráter psicológico, o filme é inspirado em filmes de kung fu dos anos 70 e, portanto, o figurino usado por Uma Thurman é uma referência e homenagem ao figurino usado por Bruce Lee no filme “O Jogo da Morte” (1978)

 

      Além do acorde amarelo-preto casar com a narrativa por Beatrix ter premeditado suas mortes fazendo uma lista, o amarelo é uma cor mais penetrante que o vermelho. Como estamos falando de um filme, faz toda diferença a percepção do espectador com relação às cores escolhidas, por isso foi esse o acorde preferido. Do contrário, o sangue não chamaria tanta atenção no figurino vermelho e o visual seria um tanto agressivo. Interessante perceber como Tarantino se utilizou do vermelho e do amarelo de formas diferentes. A primeira vez em que Beatrix Kiddo aparece com seu figurino de luta é na cena em que ela está na moto e segue o carro de Sophie. Em determinado momento o sinal fecha e os veículos param emparelhados. O tom avermelhado da cena entrega todas as mensagens atreladas ao vermelho, mas de forma suave. Isso se dá pois o vermelho não está presente como cor física, mas sim como iluminação. Apesar do amarelo ser mais penetrante, o vermelho é a cor mais agressiva. Para amenizar isso, o diretor optou por usar artifícios como a luz. Nesse caso, a luz do sinal fechado preenche a cena de maneira difusa e compõe a cor vermelha de forma branda.

 

      Percebemos, assim, como o acorde vermelho-preto foi guardado para situações menores, onde a imagem não fosse chegar de forma tão violenta ao espectador. No avião, quando Beatrix faz a lista de pessoas que pretende matar, se utiliza da objetividade do preto para os números e título, e abusa do vermelho nos nomes para criar o acorde do ódio. Apesar de ser um momento racional e de premeditação, é um momento extremamente pessoal e emocional para a personagem. Beatrix não só sofreu uma tentativa de assassinato, como foi traída pelo grupo em que trabalhava. Por estar noiva e grávida, Beatrix decidiu deixar o mundo da violência. Porém seus ex-parceiros compareceram em seu casamento com o objetivo de matá-la, deixando-a em coma por quatro anos. Vale ressaltar que Bill era pai do bebê.

 

            Outro momento icônico do filme é quando Beatrix enfrenta os 88 Loucos, o exército pessoal de O-Ren Ishii. A luta começa de forma controlada, com poucos adversários, depois o duelo se resume a Gogo e, em seguida à sua morte, o embate ganha uma tensão maior, a medida que aparecem mais soldados de O-Ren Ishii. 10 minutos após o início do confronto, as cores são substituídas pelo efeito preto e branco super saturado. O filme mais uma vez se aproxima dos filmes realizados nos anos 70. Os distribuidores faziam cópias com as cenas mais violentas em preto e branco, a fim de que seus filmes não tivessem nenhum problema com a censura norte americana. Por não expor o vermelho sangue na tela, o efeito preto e branco era uma forma de fazer com que seu filme fosse aprovado a ser exibidos na Tv. É possível sentir um alívio quando entra o efeito, pois é um momento de descanso, já que o diretor usa o sangue de maneira ostensiva e gráfica. A trégua dura cerca de 4 minutos; Beatrix pisca e a cor é restabelecida. Porém, a luz do ambiente é desligada e uma luz azul toma conta da cena. Outro momento para amenizar a violência gráfica, pois o espectador só consegue ver a silhueta dos personagens. Sem contar que o azul é uma cor fria, silenciosa e cerebral. Por ser mais sutil, esse momento é percebido mais como uma dança do que como uma luta.


 

            O azul também é usado para amenizar em um outro momento do filme, quando Beatrix finalmente enfrenta O-Ren Ishii. Na neve, temos dois polos: Beatrix com sua roupa ensangüentada e toda a tensão que carrega sua personagem, visto que seus espectadores já a acompanharam em diversas mortes incluindo os 88 Loucos. Do outro lado, O-Ren Ishii, que aparecia serena enquanto Beatrix enfrentava seu exército. Além da serenidade de sua personagem, seu figurino branco junto à neve e o céu azul trazem esse respiro tranquilo para a cena. Apesar da diferença de sensações que cada personagem traz, isso é bastante equilibrado por Tarantino através dos closes e planos abertos, de forma a tencionar e relaxar o espectador. Essa cena e toda a concepção do filme foi bastante influenciado pelo filme japonês “Lady Snowblood” (1973), principalmente a iluminação e composição desse embate na neve.

 

            Será que inauguramos o ano com um bom filme? Kill Bill ganhou uma disputa acirrada contra O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, depois de perder uma enquete super disputada com 2001: Uma Odisséia no Espaço! Você está preparado para o próximo embate? 2019 vai ser um ano repleto de análises! Não esquece de ficar atento no instagram @rosebud.club, pois é lá que você vai nos ajudar a escolher o próximo filme!



Nicole Verissimo é formada em Cinema pela PUC-Rio e estudante de Publicidade com domínio adicional em Neurociência e Cognição.

 

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