A História do Cinema Japonęs - Parte 2

A História do Cinema Japonęs - Parte 2

Postado em:
Blog - Artigos
- 01/05/2020 12:42:05


Continuamos hoje a nossa viagem pela história do cinema japonês! Você pode conferir a Parte 1 aqui!

 

Em 1923, um episódio tem um impacto alarmante sobre o Japão e a indústria cinematográfica: um terremoto na região de Kanto onde se encontravam a maior parte dos grandes estúdios. O terremoto sucedido mais adiante dos bombardeios e ocupação da força aliada resultarão segundo estudos na perda de cerca de 90% dos filmes produzidos pelo país antes de 1945, uma perda irreparável para a memória nacional.

Muitos estúdios importantes são destruídos e não apenas a indústria cinematográfica mas o país todo entra em uma crise sem precedentes. As grandes empresas mudam suas sedes e constroem outros estúdios, gerando uma migração dos membros da indústria que, apesar da crise financeira, têm como única preocupação manter a produção e frear a entrada de produtos estrangeiros em massa. 
 

Através da produção acelerada de filmes para suprir a demanda, e com as novas direções tomadas pelos principais estúdios, há o surgimento dos novos cineastas que viriam a se tornar o alicerce do cinema do país. Começam a atuar como diretores, Ozu pela Shochiku e Mizoguchi pela Nikkatsu, ambos essenciais para dar início a uma maior representatividade das mulheres em seus filmes, gerando uma reflexão maior sobre o seu papel. 
 

Nesse momento, as mulheres ainda não possuíam seus direitos assegurados pelo estado, não possuíam direito ao voto e a tradição ainda representava um elemento altamente opressor em relação à liberdade feminina. Tal opressão é retratada em massa nas próximas produções cinematográficas de Kenji Mizoguchi como Irmãs de Gion (Gion no Shimai 1936) e Elegia de Osaka (Naniwa no Ereji 1936). 
 

Com o avanço da crise e o medo da pequena burguesia de perder seus postos de trabalho há o surgimento do gênero conhecido como Shoshimingeki, dramas que retratavam essa parcela da população, o que resultou em sua enorme popularidade na década de trinta. Durante esse período nomes como Heinosuke Gosho, Yasujiro Ozu e principalmente Yasujiro Shimazu se firmaram ainda mais como autores. Shimazu é responsável pela formação de diretores consagrados como Keisuke Kinoshita e até o próprio Gosho. O sucesso das obras de Shimazu se deve não somente a identificação do público mas também a leveza da sua narrativa ajudando a atenuar o momento complicado vivido pelos espectadores, dentre suas obras podemos ressaltar A minha vizinha Yae (Tonari no Yae chan 1934). 

Ozu além de trabalhar com o Shoshimingeki, também aderiu ao outro  gênero muito similar e muito popular principalmente no final da década de trinta junto a eminência da segunda guerra mundial. Com o foco nas crianças denominado Shonen Mono, esta vertente do cinema, buscava retratar a sociedade através dos olhos das crianças, fazendo uma crítica social com leveza, algo necessário para um momento tão turbulento.
 

Com o início da guerra, o governo começa a tomar controle da indústria cinematográfica. Tal como ocorrido na Alemanha nazista, instaura diversas regras para produção nacional, onde os filmes deveriam refletir os ideais japoneses favorecendo a produção de jidaigekis. Expressões em inglês eram proibidas e avia a obrigatoriedade da projeção de cinejornais e outras produções de conteúdo nacionalista junto a projeções dos filmes ficcionais. Estas leis continuam a se tornar mais rígidas atingindo seu ápice na década de quarenta até o final da guerra. Devido as restrições do governo, algumas empresas, inclusive a Nikkatsu tiveram de se unir formando em 1942 a Daiei.
 

Durante este período o público feminino foi responsável majoritariamente por sustentar a indústria, mas mesmo com essa  parcela expressiva nas salas de cinema o primeiro longa dirigido por uma mulher veio apenas no final da década de 30. Hatsu Sugata dirigido por Tazuko Sakane, a qual trabalhou durante anos como montadora  entre outras funções nos grandes estúdios da época, sofreu grandes críticas e hoje se encontra perdido. O fato só virá a se repetir em 1953 com o lançamento de Carta de Amor (Koibumi), dirigido pela famosa atriz Kinuyo Tanaka. 
 

A derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial e a ocupação americana representa uma onda drástica de mudanças dentro da sociedade japonesa, e esta também marca o início da consolidação dos direitos das mulheres e também a instauração de uma nova censura cinematográfica, onde os jidaigekis, filmes de época, durante este período foram quase todos barrados pela censura americana. 

Dentre as proibições feitas pelo CIE²  estavam: Filmes que manifestassem propaganda militarista, mostrassem a vingança como motivo legítimo, tivessem um entrecho nacionalista, chauvinista e xenófobo, retratassem a lealdade feudal ou o desprezo pela vida como desejável ou honroso, aprovassem direta ou indiretamente o suicídio ou a submissão e a degradação das mulheres. 
 

Como uma parcela da produção nacional era voltada para o jidaigeki, muitos diretores ficaram insatisfeitos com a medida. Apenas com a saída dos Estados Unidos os diretores teriam novamente a sua liberdade criativa, essa liberdade corroborou com o que podemos chamar de  “Era de Ouro” do cinema nipônico.
 

Durante este período os cineastas japoneses começaram a adquirir maior visibilidade perante o restante do mundo, um dos reflexos desse fato foi a conquista do primeiro prêmio internacional por um filme japonês, um Leão de Ouro conquistado por Akira Kurosawa pelo filme Rashomon. Durante os próximos anos outros cineastas tal como Mizoguchi e Ozu também conquistaram diversos prêmios internacionais por suas obras, algumas destas figurando em diversas listas dos melhores filmes de todos os tempos, dentre eles Rashomon (1950), Oharu: A Vida de Uma cortesã (1952) e  Era uma Vez em Tóquio (Tokyo Monogatari 1953) respectivamente. Tais premiações colaboraram para a conta da produção, principalmente pela Daiei de filmes de época atingidos anteriormente pela censura americana, por se tratarem de filmes exóticos ao olhar estrangeiro e até hoje um dos gêneros japoneses mais conhecidos no ocidente. 
 

Essa foi a Parte 2 de nossa viagem pela história do Cinema Japonês, fique ligado para as próximas partes! E você pode conferir a nossa box dedicada ao Cinema Japonês em nossa loja: https://rosebud.club/produto.asp?produto=49

- Texto de Gabriel da Cunha Esteves  

Gabriel é diretor de arte, bacharel em cinema pela UNESA e atualmente atua como voluntário junto a Cinemateca brasileira. Nutre uma paixão e respeito pelo cinema japonês e busca o aperfeiçoamento de seus conhecimentos nessa área durante sua vida acadêmica.

Categorias

Fique informado!

+ Posts

O Pacifista, Masaki Kobayashi
O Pacifista, Masaki Kobayashi
O Poeta de Hong Kong, Wong Kar-wai
O Poeta de Hong Kong, Wong Kar-wai
O Cinema Novo Brasileiro
O Cinema Novo Brasileiro
Glauber Rocha, a Face do Cinema Brasileiro
Glauber Rocha, a Face do Cinema Brasileiro