O filme que levou 48 anos para ser finalizado

O filme que levou 48 anos para ser finalizado

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- 07/11/2018 15:13:41

Chegamos em Novembro de 2018 e um dos principais lançamentos da indústria cinematográfica nesse mês foi o mais novo filme de Orson Welles. Sim, o lendário diretor de Cidadão Kane tem uma nova produção nunca vista antes sendo lançada pela primeira vez, mesmo com o diretor tendo falecido há 33 anos atrás.

O filme se chama “O Outro Lado do Vento” (The Other Side Of The Wind) e chegou na plataforma de streaming, Netflix, no dia 2 de Novembro. Mas o filme teve uma longa jornada até chegar aqui, uma jornada de aproximadamente 48 anos.

O filme tem uma história de produção problemática. Como muitos dos filmes financiados por Welles, o projeto foi filmado e editado por vários anos.

O projeto evoluiu a partir de uma ideia que Welles teve em 1961, após o suicídio de Ernest Hemingway. Welles conhecia Hemingway desde 1937 e inspirou-se para escrever um roteiro  sobre um velho toureiro que gosta de uma jovem toureira. Nada veio do projeto por um tempo,  mas o trabalho no roteiro foi retomado na Espanha em 1966, logo após Welles ter completado   seu filme chamado “Falstaff - O Toque da Meia Noite”. Os primeiros rascunhos foram intitulados “Sacred Beasts” e transformou o entusiasta da tourada em um diretor de cinema.

Em entrevistas e banquetes procurando por financiadores, Welles descreveu o filme por seu modo não convencional de contar a história.

John Huston, protagonista do filme, confirmou que o filme foi filmado em um estilo não convencional: "É através dessas várias câmeras que a história é contada. As mudanças de uma para outra, colorida, preto e branco, imóvel e em movimento, contribuíram para uma variedade de efeitos." Ele acrescentou que as filmagens foram altamente improvisadas, com o roteiro apenas vagamente aderido. A certa altura, Welles disse a ele: "John, apenas leia as falas ou esqueça-as e diga o que quiser. A ideia é tudo o que importa".

Antes, Welles pretendia que o filme fosse feito na Europa, onde ele passou boa parte dos prévios 20 anos, depois de ter se distanciado de Hollywood, muito por conta de conflitos entre o diretor e a mídia americana. Porém, Welles retornou aos Estados Unidos e decidiu fazer o filme em Hollywood e que a história se passaria na cidade.

E então, em 1970, começou a interminável jornada de Orson Welles para fazer “O Outro Lado do Vento”.

Entre 1970 e 1971, a principal filmagem foi focada no filme dentro do filme do personagem Hannaford, e financiado com dinheiro do próprio Orson Welles. As cenas foram descritas por Welles como: “É a tentativa do velho de fazer um tipo de filme de contracultura, num estilo surrealista e onírico. Nós vemos algumas delas na sala de projeção do diretor, algumas delas em um drive-in. É cerca de 50% do filme inteiro. Não o tipo de filme que eu gostaria de fazer. Eu inventei um estilo para ele.” 

No fim de 1971, foi quando começou a longa lista de problemas que impediriam Welles a finalizar seu filme. As filmagens tiveram que ser paralisadas quando o governo dos EUA decidiu que a empresa européia de Welles era uma holding, não uma empresa de produção, e, retrospectivamente, apresentou-lhe uma grande conta de impostos. E sem ter como pagar, Welles teve que parar a produção do filme e trabalhar em diversos outros projetos para poder quitar as dívidas.

Depois de pagar suas dívidas e conseguir um pequeno investimento, em 1973, o diretor conseguiu gravar mais algumas cenas e em 1974, quando as principais filmagens retornariam, a produção teve que ser paralisada mais uma vez, pois um dos investidores fugiu com grande parte do orçamento do filme.

Em 1975, Welles recebeu o AFI Lifetime Achievement Award e aproveitou a cerimônia para exibir um pedaço de seu filme e pediu investimentos para finalizar a produção. Um produtor ofereceu investir no filme, porém a co-produtora do filme, Dominique Antoine, rejeitou a oferta acreditando que aparecia uma oferta ainda melhor. Porém tal oferta nunca aconteceu, e Welles amargamente se arrependeu da recusa, comentando antes de sua morte que, se ele tivesse aceitado, "o filme já teria sido finalizado e lançado".

Ainda em 1975, Welles retomou as filmagens de algumas cenas, e em 1976, 6 anos após o começo das filmagens iniciais, o diretor completou as principais filmagens do filme. Porém isso não foi o fim do drama da produção.

Apesar de conter 96 horas de gravações, incluindo dezenas de takes de muitas cenas, e refilmagens de diversas cenas com novos atores substituindo outros que não puderem finalizar a caótica programação da produção, Welles nunca chegou a finalizar tudo o que precisava para o filme ficar pronto.

A narração inicial do filme ficou sem gravação registrada, sendo gravado apenas posteriormente por Peter Bogdanovich, ator que interpreta Otterlake. Welles conseguiu editar apenas entre 40 e 45 minutos de filme, faltando ainda cerca 75 a 80 minutos de cenas a serem editadas. A trilha sonora do filme não havia sido gravada, apesar de Welles ter expressado o desejo de ter trilhas de jazz. E duas cenas presentes no corte final visto na Netflix nunca chegaram ser filmadas por Welles, os bonecos explodindo depois de serem baleados e a cena final do último carro saindo do cinema drive-in. O primeiro foi fornecido com a ajuda de CGI, com manequins baleados contra uma tela verde que foram misturados com imagens manipuladas de pedras, e o segundo foi fornecido pelo uso de imagens de um cinema drive-in, com o filme de Hannaford inserido digitalmente na tela.

Entre as 96 horas de filmagem, descobriu-se que as fitas de som originais para muitas das sessões das gravações de 1974 estavam faltando. Isso teve de ser fornecido por meio de uma combinação de fontes de som de segunda ou terceira geração digitalmente limpas, arquivado nos materiais de trabalho de Welles, ou por meio de dublagem de atores modernos, em alguns casos apenas dublando palavras ou sílabas individuais para agregar com as gravações em falta.

Orson Welles passou seus últimos anos de vida enfrentando problemas financeiros e legais por conta do filme. Até que o ano de 1985, e Welles faleceu aos 70 anos idade, e seu projeto dos sonhos nunca viu a luz do dia.

E após sua morte, se manteve por anos o conflito de quem seria o dono do filme após a falência de Welles. A herdeira de Welles foi sua esposa, Paola Mori, que também veio a falecer no ano seguinte, em 1986, e então os trabalhos de Welles foram passados para sua filha, Beatrice Welles. Porém outra pessoa também recebeu os benefícios de herdeiro, sua parceria e amante, Oja Kodar, que co-escreveu e foi uma das protagonistas do filme, que recebeu todo o controle artístico de projetos não finalizado por Welles. Beatrice Welles vem batalhando desde então no tribunal alegando que ela é a dona dos direitos de todos os projetos, finalizados e não finalizados, de seu pai, e vem bloqueando uma possível finalização de “O Outro Lado do Vento” desde então.

E enquanto os problemas legais não se resolviam, o rolo negativo original do filme ficou trancado em um cofre em Paris por todos esses anos. Porém, existia duas cópias, uma pertencendo a Gary Graver, o cinegrafista do longa, e uma pertencia ao próprio Welles que foi repassado a Oja Kodar após a sua morte.

Ao longo dos anos, houve diversas tentativas de eliminar os obstáculos legais remanescentes à conclusão do filme e obter as finanças necessárias. Aqueles mais intimamente envolvidos nestes esforços foram Gary Graver (Cinegrafista do filme), Oja Kodar (Co-Roteirista e co-protagonista), Peter Bogdanovich (Co-protagonista e um dos investidores), o crítico de filme Joseph McBride e Frank Marshall, que hoje é um dos maiores produtores de Hollywood e teve um dos seus primeiros empregos no longa de Orson Welles. Marshall, em particular, foi fundamental para conseguir que vários grandes estúdios no final dos anos 90 assistissem a um corte brusco do filme, embora a maioria tenha se preocupado com as questões legais cercando a produção.

Décadas e décadas se passaram, os problemas financeiros e legais nunca terminavam, com diversos conflitos entre os herdeiros de Welles, conflitos com antigos investidores impedindo ou complicando negociações, morte de investidores repassando seus direitos para outros herdeiros de suas partes no filme atrapalhando novamente o andamento das legalidades envolvendo o filme.

Até que, finalmente, em 2016, todos os envolvidos e donos de alguma parte de investimento no filme chegaram a um acordo, e com uma oferta de 5 milhões de dólares da plataforma de streaming, Netflix, a produção voltou a vida. Em 2017 foi confirmado que um contrato foi assinado, e a Netflix financiaria a finalização do filme e faria a distribuição juntamente ao documentário de acompanhamento sobre a jornada da produção.

Em Janeiro de 2018, um primeiro corte da versão final do filme foi exibido para um grupo seleto de convidados que incluíam membros e parentes do elenco e da equipe técnica do filme, e também diretores como Quentin Tarantino, Paul Thomas Anderson e Rian Johnson.

Em Março de 2018, o compositor Michel Legrand, que já trabalhou com Orson Welles em “F for Fake”, começou as gravações da trilha sonora desejada por Welles.

Então, em 31 de Agosto de 2018, a versão completamente finalizada do filme finalmente encontrou seu destino final. 48 anos desde as gravações iniciais do filme, o Festival de Veneza exibiu pela primeira vez o corte final de “O Outro Lado do Vento”, recebendo ovação pelo público presente e sendo aclamado por diversos diretores, artistas e críticos, sendo considerado um dos melhores trabalhos da carreira de Orson Welles.

Desde 2 de Novembro, o filme está disponível para o mundo inteiro na Netflix junto do documentário  “Serei Amado Quando Morrer”, onde você pode acompanhar os atores, equipe e pessoas que participaram da produção do filme toda a jornada desde o primeiro dia de gravações até seu lançamento.


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