A Cor no Cinema

Postado em:
Blog - Psicologia das Cores
- 05/12/2018 18:33:06

 O cinema é colorido desde os Irmãos Lumière. Poucos sabem, mas eles, dentre outros cineastas que se seguiram, tingiam os fotogramas da película a mão, um a um. Nesse caso, até a década de 20, os filmes eram colorizados – colorido seria somente quando a cor fosse captada durante o processo fotográfico. O processo era lento e demandava uma mão de obra de baixo rendimento e alto custo, além da cor ser completamente artificial. À medida que formas mais eficientes eram descobertas, os produtores começaram a ter um forte receio com relação às cores. O medo era que a cor chamasse mais atenção que o enredo e a atuação, roubando, assim, a atenção do público.

Em seguida, a ideia era gravar com filtros coloridos – gravar mais de uma vez a cena e, cada vez, usando um filtro diferente. Na década de 30, a Technicolor lança um tipo de película que filmava três cores (ciano, magenta e amarelo) juntamente com uma câmera de três elementos que daria um maior realismo às produções. Nesse momento, o processo de coloração já tinha um caráter industrial. Os dois primeiros filmes lançados comercialmente coloridos por esse sistema foi Vaidade e Beleza (Becky Sharp, 1935, dirigido por Rouben Mamoulian) e a animação Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1936, dirigido por David Hand), do estúdio Disney.

Enquanto muitos cineastas eram contra a implementação da cor, Andrei Tarkovski pensava que “Na vida real nós raramente prestamos atenção à cor. Quando observamos alguma coisa acontecendo não nos damos conta da cor. O filme branco e preto cria imediatamente a impressão que a sua atenção está concentrada no que é mais importante. Na tela, a cor se impõe por si mesma ao espectador enquanto na vida real isso acontece apenas em alguns momentos especiais. Logo, não está certo que o público fique o tempo inteiro consciente das cores.”

Por outro lado, o diretor de O Mágico de Oz (The Wizard of Oz), Victor Fleming, decidiu se aproveitar das vantagens do technicolor. Quando o filme estreou no cinema em 1939, muitos espectadores estavam vivenciando a cor na tela pela primeira vez. Fleming tinha plena consciência disso e escolheu a nova tecnologia, incentivando os responsáveis pelo cenário e figurino a investirem ao máximo em cores. O ser humano enxerga as cores há muito tempo, mas ela estava finalmente surgindo no cinema e iniciando uma experimentação de como se utilizar dessa técnica em função das narrativas.

             


Apesar de surgir no cinema apenas no século XX, a cor é um fenômeno estudado desde Isaac Newton. Atualmente, o cinema, completamente colorido – não ter cor, hoje, é apenas uma escolha estética e narrativa por parte do diretor – se aproveita dos estudos realizados anteriormente por Newton e Goethe sobre as cores para comunicar seus filmes de uma forma mais certeira: através do inconsciente. A Psicologia das Cores é o estudo do caráter psicológico das cores, incluindo os efeitos que as cores podem produzir no ser humano. Essa é uma importante ferramenta para quem trabalha com o cinema colorido, pois pode ser algo usado ao favor do próprio filme.

No campo cinematográfico, o estudo da psicologia das cores tem se tornado uma ferramenta muito útil e muito importante nas obras. Dentro do Departamento de Arte, as cores, além de contribuir para a narrativa do filme, são importantes artifícios para trazer informações sensoriais aos espectadores. As escolhas de cor vêm desde a pré-produção de um filme até a pós-produção, onde é possível alterar cor e luz digitalmente. Por outro lado, os cineastas devem ter cuidado para não fazerem escolhas de cores com base unicamente em uma noção intelectual ou abstrata. Se, por exemplo, um diretor escolhe o azul para simbolizar “esperança” porque o céu é azul quando o sol brilha, é possível que ocorra uma reação indesejada. Em vez de se sentir esperançoso, o público pode involuntariamente responder ao azul sentindo- se cansado e até melancólico.

Um bom exemplo que ilustra o impacto inconsciente da cor nas pessoas é a maneira como o diretor Kasi Lemmons escolheu uma luz verde em particular, que desempenhou um papel fundamental no filme The Caveman’s Valentine (Visões de um Crime, 2001). No roteiro, o escritor George Dawes Green especificou um “pernicioso” (perverso) verde, então, Lemmons e a fotógrafa Amy Vincent testaram o efeito de diferentes luzes verdes no ator Samuel L. Jackson e avaliaram sua reação física e emocional a cada um deles.

                

Através do exemplo, percebemos não só como a cor de fato altera a reação física e emocional do ser humano, como entendemos o quão cuidadoso deve ser esse contato e abordagem com relação ao caráter psicológico das cores. Podemos perceber que existe, sim, uma mensagem inconsciente por parte das cores e que é possível usar isso conscientemente a seu favor.


No próximo post, falaremos mais sobre a Psicologia das Cores, teoria que disseca a função psicológica das cores, e de que maneira ela se aplica ao cinema, trazendo exemplos e analisando filmes e cenas. 



Nicole Verissimo é formada em Cinema pela PUC-Rio e estudante de Publicidade com domínio adicional em Neurociência e Cognição.

 

 

Categorias

Fique informado!

+ Posts

O Cidadão Welles
O Cidadão Welles
Analisando Parasita
Analisando Parasita
Almodóvar
Almodóvar
 O Cinema de Hong Sang-soo
O Cinema de Hong Sang-soo
Louis Malle, O Autor Viajante
Louis Malle, O Autor Viajante