Análise das cores em Brilho Eterno de Uma mente sem Lembranças

Análise das cores em Brilho Eterno de Uma mente sem Lembranças

Postado em:
Blog - Psicologia das Cores
- 08/01/2019 23:25:04


          Como falar das cores de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e não se lembrar dos cabelos coloridos de Clementine Kruczynski? A paleta de cores do filme é, no geral, fria e monótona, o que faz a personagem sobressair naquele contexto. Além do cabelo, seu figurino faz uso de cores mais quentes do que seu parceiro Joel Barish. O filme em si traz um ar azulado, nos trazendo um aspecto frio para o filme. O “calor” das cores chega com a personagem Clementine, sempre usando mais de uma cor chamativa.

            Sabendo que boa parte do filme se passa na cabeça de Joel, enquanto suas memórias com Clementine estão sendo apagadas e ele tenta conseguir uma maneira de guardar alguma coisa, o azul como atmosfera escolhida é perfeito. Assim como a água, o ar é transparente. Se colocar um pote de vidro vazio (com ar) ele é transparente, da mesma forma como um pote de vidro cheio de água. No entanto, quanto mais fundo o lago/oceano, mais azul ele parece ser. O azul é gerado pela reprodução infinita de qualquer material transparente, o que nos faz achar que o azul é grande. Além disso, quanto mais fria uma cor, mais distante ela parece ser. Todas as cores vão parecer mais tristes e azuladas se estiverem longe. Isso se dá devido a uma camada de ar na frente do objeto. Por conta desses aspectos, o azul nos traz uma ilusão do espaço, o fazendo parecer ser infinito.

 

 

           A primeira vez que Clementine aparece no filme seu cabelo é azul. Como sabemos que a história não é linear, essa não foi a primeira vez que os dois se viram. Quando Joel e Clementine se conheceram, seu cabelo era verde. Mas o filme começa a partir desse segundo encontro, sem saber que já se conheciam. Após o término do relacionamento, Clementine apagou Joel de sua memória e, em seguida, ele fez a mesma coisa. Nada mais frio do que isso, né? A frieza do azul nos remete quando sentimos frio, pois nossa pele e lábios ficam azulados. Além disso, a neve e o gelo possuem uma cintilação que é azul. O branco não transmite frieza porque o branco também é luz. Já o azul, é a sombra. Na pintura clássica, a sombra era pintada de marrom ou preto. No Impressionismo, o preto foi abolido e o marrom substituído por azul.

            As cores do cabelo de Clementine, mais do que falar sobre a personalidade dela, como ela mesma diz no filme, fala sobre o atual momento em que ela vive e ajuda o espectador a se localizar na cronologia do filme. Sempre que a razão tem que superar a paixão, o azul é a cor principal. O azul é uma cor cerebral, cor da ciência, inteligência, frieza e passividade. A expressão “blues” em inglês é derivada do nome da cor e significa triste e melancólico. Clementine está vivendo esse momento, mesmo sem se lembrar o motivo. Além do término do relacionamento, ter apagado dois anos com Joel de sua memória a torna sem esperança e completamente passiva com a vida. Inclusive, o nome da tinta azul, como ela mesma diz no filme é “ruína azul”, o que já dá para imaginar o tipo de vida que ela vem levando.

 

            O acorde da esperança é verde-azul-amarelo. Apesar do verde ser a cor mais intensa e reconhecida como esperança, existe azul ali. Isso se dá porque o verde é o resultado da mistura entre azul e amarelo. No fim do filme, quando Clementine e Joel resolvem ficar juntos, apesar de tudo, o cabelo azul responde a essa pitada de esperança. A diferença é que o verde é a esperança de um recomeço, a ansiedade e felicidade de dar certo. Nesse caso, os personagens já sabem que lá na frente vai dar errado, mas preferem arriscar por acreditar que os momentos bons valem à pena. Diferente de quando se conhecem pela primeira vez, quando o cabelo de Clementine é verde e eles não têm noção do que vai acontecer no futuro.

            Apesar de ser uma cor fria, o verde pode ser uma cor tranquilizadora. Ao lado do laranja é uma cor refrescante, agradável, divertido, aconchegante e amável. Não é à toa que Clementine veste essas cores quando conhece Joel pela primeira vez. O verde é a cor simbólica da natureza, por isso representa a relação e proximidade com a natureza, uma das razões pela qual o casal se encontra em uma praia. O verde não é uma cor passiva nem ativa, é a cor do meio: entre a passividade do azul e a impulsividade do vermelho. O verde é a cor da espera, mas da animação e da torcida para que as coisas aconteçam. É a cor do bem estar material e espiritual. Mesmo o verde e o azul sendo cores frias, não necessariamente seus significados são sempre ruins. O cabelo verde de Clementine se chamava “verde revolução”, não sabemos ao certo se ela já estava vivendo uma revolução ou se estava a espera de uma. De qualquer forma, o verde era algo bom, diferente da tinta “ruína azul”.

 

 

            Após se conhecerem na praia, o segundo encontro se deu quando Joel foi à procura de Clementine na loja. A personagem já tinha mudado a cor do cabelo, que dessa vez era uma cor quente: vermelho, a depender da luz, um rosa-avermelhado. O rosa clássico é uma cor em que todos os sentimentos relacionados são positivos, é uma cor sensível, charmosa e gentil. O tom rosa-clássico não é o mesmo do cabelo de Clementine. A tinta “ameaça vermelha”, como o próprio nome diz, tem um pé no vermelho. Mas apesar do nome, a cor que vemos na tela flerta com o rosa e o vermelho. O acorde do amor é composto por duas cores, vermelho (em maior escala) e o rosa. O vermelho do amor, unido ao rosa, transmite inocência e sedução. Já o rosa, com um pouco de vermelho, transmite ternura, feminilidade e doçura. Além de todas as cores estarem de acordo com a personagem, o rosa forte é uma cor atraente.

 

Após essa cor, Clementine migrou para o “laranja agente”, nome que ela mesmo inventou. Joel a chamava de Tangerina, devido a coloração do cabelo. Vale lembrar que o laranja é composto pela mistura do amarelo e do vermelho. O laranja ainda lembra um vermelho desbotado, como se todos os sentimentos da tintura anterior estivessem perdendo a intensidade. Por outro lado, o laranja é uma cor que não se leva a sério, por essa razão, não é uma cor recomendada para artigos caros pois a cor ridicularizaria o objeto em questão. Nesse momento o relacionamento de Joel e Clementine não andava muito bem. O laranja é a cor da comunicação, mas os dois não estavam se comunicando direito. Em determinado momento Joel diz à Clementine que falar sem parar não é o mesmo que se comunicar. O laranja é cor da transformação. Essa transformação do relacionamento parte da própria transformação de cada personagem. O relacionamento se desestabiliza e traz à tona algumas desconfianças. O namoro termina na cor laranja.

 

 

O laranja é a cor complementar ao azul. Segundo Van Gogh, não existe laranja sem azul. Enquanto o azul é silencioso, o laraja é radiante. Após o “laranja agente”, Clementine tinge o cabelo de “ruína azul”, como vemos no início do filme. Em sua primeira cena, veste o casaco laranja que compõe junto ao cabelo azul. Por serem cores complementares, o laranja atua de forma mais radiante com o azul. Apesar disso, seu humor fica azul pós-término e pós experimento de apagar Joel da memória em um experimento da Lacuna Inc. Acima falamos sobre tudo o que o azul representa nesse momento posterior ao relacionamento. Cronologicamente seu cabelo começa verde, depois vermelho, em seguida laranja e, por fim, azul. Qual cor será que ela pintou após reatar com Joel, mesmo sabendo que eles já tiveram um passado? Algum palpite?

Assim como Joel e Clementine, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças ganhou uma segunda chance na nossa enquete e, em uma disputa acirrada, foi escolhido por vocês! Animados para o próximo? Mandem suas sugestões e fiquem atentos na votação no story da @rosebud.club!

 

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