Eu, a Angelina Jolie e o Gilberto Gil

Eu, a Angelina Jolie e o Gilberto Gil

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- 07/03/2020 11:32:21


Eu, a Angelina Jolie e o Gilberto Gil

 

Sempre tive medo de ir ao cinema sozinho. Cresci acreditando no inverso daquele ditado, o “antes só do que mal acompanhado” - família grande, amigos da escola, amigos da faculdade, amigos dos amigos, da Barra, do Leblon, de uma vida inteira. Até o dia em que resolvi ir ao Lagoon para assistir “Malévola” (sempre me interessei muito mais pelos vilões do que pelos mocinhos). Era uma sexta-feira, em 2015 se não me engano, eu tinha acabado de chegar da escola. Pensei que se fosse pela tarde não haveria muitas pessoas e, se Deus quisesse, ninguém conhecido. Fui com muito medo, mas fui. Lembro de olhar para os lados, de achar que todos me julgavam simplesmente por estar só. Que bobagem. 

 

Saí daquela sala completamente fascinado. Por estar sozinho. Por estar feliz. Por estar feliz sozinho. Por descobrir que isso é possível. Por abraçar minha inclinação infantil para ter dó dos vilões e por saber que eles tinham algo a mais para falar, algo que “justificasse” (entre algumas aspas) suas atitudes maléficas. Eu estava certo. Ninguém é totalmente bom nem totalmente mal. Ainda bem. Minhas angústias diminuíram pela metade. Menos cinco anos de terapia. Obrigado, Angelina. 

 

Depois daquela tarde muitas outras vieram. Com mais confiança e coragem, é claro, o que acabou trazendo até mesmo as noites para a parada. E os sábados e domingos, também. Capitão Fantástico, Hebe, Fanny e Alexander, Coringa, Três Anúncios Para Um Crime, Tinta Bruta, La La Land, Como Nossos Pais… A lista é longa. A cada sessão, um novo compartimento que se abria dentro de mim e que não fechei até hoje. De cada filme tenho alguma coisa em minha vida. De cada ator. De cada diálogo. De cada cena. E nem sempre é só no campo do subjetivo: semana passada, em uma festa, percebi o quanto eu danço parecido com a Keira Knightley em Begin Again - meu filme preferido.

 

Dito isto, nunca fui de dar muito ibope para as críticas cinematográficas. Ao contrário: minha essência ariana de ser sempre me impulsionou a amar o que odiavam. O que nem sempre deu muito certo, é claro, mas sigo tentando… E, por isso, é extremamente difícil o que tenho para falar: fui levado, por meia dúzia de pessoas, a não assistir a sequência de Malévola, “Dona do Mal”. Confesso que esse subtítulo me deixou, de antemão, com um pouco de receio. Como é que aquela vilã que ressignificou o sentido da dualidade temática dos contos de fada me aparece, agora, como a dona do mal? Puro pré-conceito. Não dei uma chance sequer para a Angelina Jolie. Caí dentro da mesma dualidade a qual sempre questionei. Hoje, vejo o quão sem lógica foi essa minha atitude.

 

Acontece que foi tanto o tempo que se passou que o filme até já saiu das salas de cinema - o que me deixa um pouco triste, admito. Sou fã assumido desse programa centenário, necessário e - infelizmente - muito caro. Mas tudo bem, o que passou, passou. O que importa é o presente, já cantava Gilberto Gil. O filme tá aí para ser visto. E, principalmente, enquanto acreditarem que o bom é bom e que o mal é mal. 

 

Será que já foi para o Now?

Ricardo Pinheiro é estudante de Jornalismo da UFRJ, já passou pela Publicidade e por Rádio/TV. Apaixonado pelo jornalismo cultural e pelas crônicas, acredita na escrita como real possibilidade de transformação social. Seu programa favorito é ir ao cinema.


 

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