A História do Festival de Cannes - Parte 1

A História do Festival de Cannes - Parte 1

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- 28/09/2020 13:59:55

 

O Festival de Cannes é, atualmente, o maior evento cinematográfico do mundo. Porém, há 81 anos atrás, em 1939, era apenas um festival modesto criado para celebrar filmes e competir com o Festival de Veneza. Esse era o único festival internacional do mundo e, na época, estava sofrendo interferência dos líderes fascistas, Adolf Hitler e Benedito Mussollini.
Na edição de 1937 do Festival de Veneza, Hitler estava insatisfeito com a falta de prêmios para as produções alemães, em sua preferência as produções propagandistas, e se irritou ao saber que o Festival tinha a intenção de premiar A Grande Ilusão (1937), de Jean Renoir. A partir disso, Hitler e Mussollini concordaram em controlar quem seria convidado para o evento e quem seria premiado. 

Em 1938, o Festival estava prestes a divulgar os vencedores da edição quando Hitler interferiu e fez ameaças ao júri para mudar a lista de filmes premiados. Assim, o festival premiou o documentário de propaganda nazista, Olympia (1938), de Leni Riefenstahl, e o filme italiano Luciano Serra, Piloto (1938), de Goffredo Alessandrini.

Por conta dessa ação anti democrática, alguns membros do júri se retiraram e países como França, Estados Unidos e o Reino Unido se demonstraram decepcionados determinados a não voltar ao festival enquanto estivesse sob controle fascista. 

Após um momento de preocupação, produtores e ministérios dedicados ao cinema começaram a reagir. A Suíça e a Bélgica estavam considerando, através da criação de um festival de cinema, substituir o Festival de Veneza. Philippe Erlanger, um oficial de alto escalão, ainda se recuperando dos eventos venezianos em um trem que o levava de volta à França, já pensa começou a pensar em organizar uma demonstração para substituir o festival e abrir ao mundo um festival gratuito, sem pressão ou constrangimento. 

Erlanger entrou em contato com as autoridades envolvidas e apresentou um projeto. Com a próxima edição do Festival de Veneza se aproximando, os franceses tiveram que se apressar para poder lançar o seu próprio festival a tempo de competir com o evento que ocorreria na Itália. Após a aprovação de Jean Zay, ministro da Educação Nacional, e de Albert Sarraut, ministro do Interior, em Dezembro de 1938, a ideia de uma demonstração francesa dedicada ao cinema se tornou oficial

Contra o tempo e contra todas as probabilidades, e após longas discussões, o governo francês planejou a primeira edição do Festival de Cannes para 1939. Diversas cidades francesas foram sugeridas para ser a sede do evento. Mas, após representantes da cidade de Cannes apresentarem todas as vantagens da cidade e sua beleza natural, foi oficializado que o festival aconteceria na cidade de Cannes, no sul da França. O contrato oficial foi assinado no dia 31 de Maio de 1939 e a primeira edição foi marcada para acontecer em setembro de 1939, ao mesmo tempo que o Festival de Veneza, que seria comandado pelo ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels.

A França não se permitiu receber nenhuma recompensa por ser o país sede do evento. Philippe Erlanger foi escolhido como o primeiro diretor geral do Festival de Cannes e Louis Lumière, conhecido como o pai do cinema na França, foi convidado para ser o primeiro presidente honorário do evento. Os Estados Unidos, com sua grande influência na indústria cinematográfica graças ao sucesso de Hollywood, se ofereceram a ajudar o Festival de Cannes a se estabelecer como um evento cinematográfico mundial. Após negociações, o Reino Unido também se comprometeu a apoiar o festival francês. O governo francês, por sua vez, pediu apoio da União Soviética, a fim de mostrar força política contra uma possível ofensiva da Alemanha de Hitler, e os soviéticos concordaram em apoiar os franceses.

Devido à situação financeira da maioria dos países na época por conta da guerra que estava começando, apenas nove países puderam participar da abertura da primeira edição do Festival de Cannes. Os organizadores franceses, no entanto, enfatizam seu sucesso porque, apesar dos ausentes, obtiveram a participação dos mais poderosos estados democráticos da indústria cinematográfica e da União Soviética.

Com o tempo se esgotando, o Estado francês reuniu todos os seus ministérios e empresas públicas para reduzir ao máximo os custos da organização do evento e pediu ajuda de empresas, como empresas aéreas, por exemplo, para oferecer bilhetes gratuitos para o júri e grandes estrelas convidadas. Em troca, essas empresas receberiam publicidade significativa no festival. 
Anualmente, um grande público internacional é esperado em Cannes para o festival. Na primeira edição, não foi diferente e, para anunciar essa nova reunião cinematográfica, estava prevista a organização de uma deslumbrante Gala de Cinema em Paris. Sob a presidência de Louis Lumière, essa gala permitiu reunir estrelas internacionais, embaixadores e representantes da imprensa francesa e estrangeira. O comitê de Paris lançou o Festival e o comitê de Cannes assumiu a responsabilidade da organização local. No final de agosto de 1939, houve celebração ao anunciar que estava tudo certo para a abertura do primeiro Festival de Cannes.

O comitê de Cannes era responsável pelo cartaz proclamando a abertura do evento e Jean-Gabriel Domergue, famoso pintor de Cannes, se ofereceu a criar o primeiro cartaz do festival gratuitamente. Os organizadores publicaram uma brochura de luxo, cinquenta mil cópias, em francês e inglês, anunciando os eventos planejados para o festival.

Enquanto os primeiros frequentadores do festival se estabeleceram nos palácios de Cannes em agosto de 1939, os organizadores começaram a vislumbrar todas as possibilidades dadas pela realização deste evento internacional. No entanto, competir com o Festival de Veneza não era mais o único objetivo e logo se tornou uma questão de impor o cinema francês em todo o mundo e tentar igualar a poderosa indústria americana. Agora esse sonho poderia se tornar realidade graças ao Festival de Cinema de Cannes. A cidade e sua região cobiçavam o título de “Hollywood Europeia” na esperança de destronar os estúdios italianos de Cinecittà e os de Neubabelsberg, em Berlim.

O modelo de premiação havia sido estabelecido alguns meses antes regido por um princípio de "objetividade artística e imparcialidade absoluta", escrito nos regulamentos do evento. Além disso, estava prevista uma dupla competição, nacional e internacional, e diferentes categorias de filmes entre ficção, documentário e desenho animado, para os quais estavam previstas atribuições especiais. Medalhas de honra também iam premiar todos os filmes da competição.

Para competições internacionais, os filmes disputariam o Grand Prix de Louis Lumière para Melhor Diretor; Grand Prix Internacional de Melhores Artistas; dois prêmios internacionais do júri; além de prêmio de Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora e Melhor Operador de Câmera. Todos esses prêmios, em forma de xícaras, foram obras de arte da fábrica de Sèvres, às quais foram adicionados objetos valiosos oferecidos por pessoas famosas.

No dia primeiro de setembro de 1939 aconteceu a abertura da primeira edição do Festival de Cannes e a partir disso, a pequena cidade de francesa, que já foi uma vila de pescadores, se tornou a principal capital mundial do cinema. Porém, após alguns dias, com a Segunda Guerra Mundial se alastrando pela Europa, foi anunciado que o restante do Festival seria adiado. A guerra se complicou ainda mais e as tropas alemães invadiram o território francês. Então, a primeira edição do festival foi dada como cancelada e não houve discussões sobre os anos seguintes com o decorrer da guerra.

Fique ligado em nossa página para conferir o resto da história do Festival de Cannes na parte 2!


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