Almodóvar

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- 27/07/2020 12:12:46

 

Almodóvar por Bruno Tavares

O DESEJO EM VERMELHO

Como já dizia Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. Essa máxima serve para descrever o labirinto de paixões e as leis do desejo criadas por Pedro Almodóvar. Em seu cinema humano, o diretor apresenta uma miríade de personagens atormentados, marginalizados, impulsivos, enérgicos e, acima de tudo, apaixonados.

Para compreender melhor o cinema do espanhol é preciso observar sua obra sob a ótica da autoria. De maneira geral, o que caracteriza um autor de cinema é a recorrência na abordagem de determinados assuntos, a criação e caracterização de um universo temático reconhecível e um maneirismo próprio na condução de questões técnicas como a fotografia, o uso de cores, o desenho de som e a performance dos atores.

Grande parte das questões trabalhadas por Almodóvar em seus filmes estão conectadas com a sua história, visto que ele usa a própria vida como maior fonte de criação. Por isso, vale uma pequena retrospectiva. Pedro Almodóvar nasceu no interior da Espanha no início dos anos 1950. Nessa época, o país vivia sob a ditadura franquista e, por isso, os primeiros anos do jovem Pedro foram marcados por uma constante repressão de costumes. Tamanha moderação agravou-se no período em que estudou num colégio católico, onde foi vítima de tentativas de abuso sexual por padres. Nessa fase de má educação, o cinema lhe serviu como maior refúgio.

Em 1968 Almodóvar se mudou para Madri onde começou a trabalhar na companhia telefônica. Nessa função, teve contato com uma infinidade de histórias que posteriormente lhe serviriam de inspiração para o roteiro dos filmes. O diretor aprendeu cinema por conta própria e com o salário que recebia comprou uma câmera Super 8. O lançamento de seus primeiros filmes coincidiu com a morte de Francisco Franco e a abertura da Espanha para o mundo. Nesse cenário nasceu a Movida Madrileña, movimento de efervescência cultural do qual Almodóvar fez parte e que trouxe ares modernos e criativos para o país.

Fruto deste contexto histórico, a obra do realizador se tornou uma válvula de escape para os desejos reprimidos da infância na forma de uma ampla diversidade sexual, vivida e apresentada de salto alto, sem juízo de valor. As cenas de sexo são verdadeiros balés de carnes trêmulas, integradas à perfeição com a história contada. Se existem maus hábitos, feitos para chocar, estes são praticados por religiosos e simpatizantes da ditadura franquista.

As narrativas de Almodóvar por vezes entrelaçam um desejo matador a atos transgressores e situações absurdas. Com isso, o universo criado por ele se afasta da realidade e se  aproxima do improvável, permitindo ao espectador rever conceitos, posições e crenças, característica que nos remete à Buñuel, outro grande nome do cinema espanhol.

Como um bom contador de histórias, Almodóvar soube amadurecer suas figuras dramáticas. Se no início os filmes possuíam personagens em demasia, títulos mais recentes são protagonizados por poucos e complexos indivíduos. A pele que habitam é bem semelhante. As figuras masculinas tendem a ser negativas, controladoras ou ausentes. Já entre as mulheres, existem variadas nuances. Elas podem ser matriarcas opressivas, como a mãe de Ángel; neuróticas, como Lucía; apaixonadas; como Tina e Huma; ou empáticas e cuidadosas, como Manuela e Raimunda. Os personagens comumente se envolvem em triângulos amorosos e tais casos têm fins violentos. Sobretudo, eles são invariavelmente humanizados e aceitos, independente de sua sexualidade.

Apaixonado por cinema, Almodóvar não gosta que seus filmes sejam categorizados. Isso porque o diretor mistura e subverte características de diferentes gêneros. Do melodrama, por exemplo, ele resgata os conflitos morais, as mudanças de rumo inesperadas, a fatalidade e os sentimentos exacerbados. É daí também que vem a mise-en-scène pomposa e as reviravoltas na trama. Da comédia, em especial a screwball comedy, o cineasta traz os diálogos rápidos, as situações esdrúxulas e a constante movimentação dos personagens. Subgêneros como o noir e o thriller também marcam presença na obra do espanhol.

O apreço pela sétima arte e as referências constantes aos processos de gravação tornam a obra de Almodóvar metalinguística. É comum que os personagens trabalhem na indústria cinematográfica, seja como dubladores, roteiristas, diretores ou atores. Os protagonistas também assistem a filmes e ali enxergam situações análogas às que estão vivendo. Títulos como Ata-me e Má Educação mostram sets de filmagens. Já em Fale com Ela, o autor recria um filme mudo, intitulado “O amante minguante”, que parece saído de um conto de Charles Bukowski. Os exemplos abundam.

Diante de tantas características autorais, Almodóvar se destaca ainda pela utilização narrativa do vermelho. Enquanto muitos cineastas atribuem significados diferentes para as mesmas cores conforme o filme, o espanhol usa os tons rubros de forma consistente ao longo de toda a filmografia. O vermelho de Almodóvar é usado com critério e simboliza amor, morte ou religião. Quando a cor não aparece fisicamente nos personagens, ela é facilmente identificável na mise-en-scène.

Gozando de uma posição sonhada por muitos cineastas, Pedro Almodóvar desfruta tanto o respeito da crítica quanto o apoio do público. Reconhecidamente o diretor espanhol de maior projeção internacional na atualidade, ele é dono de uma carreira repleta de clássicos modernos. Seus filmes ensinam ao mundo a importância do respeito às diferenças e dão protagonismo a personas coloridas, situações inusitadas e a típica amorosidade espanhola. Se Caetano afirma que de perto ninguém é normal, Almodóvar ensina, com dor e glória, que vistos de perto somos todos normais, porque o diferente é apenas isso: o normal pouco visto.
 

SOBRE O AUTOR:

Bruno Tavares é Publicitário, Crítico de cinema e Pós-Graduado em Marketing Digital. Atua como redator da Revista Subjetiva e editor do portal Cinemascope.



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