O Cinema de Hong Sang-soo

O Cinema de Hong Sang-soo

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- 24/07/2020 12:04:03

 O Cinema de Hong Sang-soo | Por Leonardo Luiz Ferreira

Um quadro estático colorido exibe o crédito do filme; um entrecho musical acompanha a tela. Um homem caminha na rua e, em seguida, desenrola uma conversa em plano-sequência. Não é preciso muito para identificar o cinema do cineasta coreano Hong Sang-soo. Ele é hoje um dos principais autores do cinema contemporâneo, com uma produção anual de qualidade e relevância.
Ao analisar etimologicamente a palavra autor, aquele que é o criador de alguma obra, percebe-se que tão poucos realizadores no cinema poderiam receber tal alcunha quanto Sang-soo. Mas, no caso dele, essa máxima é levada ao paroxismo: dá a impressão de estarmos assistindo sempre ao mesmo filme, com pequenas nuances. Aí é que reside o ponto central de toda filmografia do coreano: a vida é feita de repetições e somente a partir delas é que conseguimos lançar outro olhar para o mundo. Portanto, por mais que, à primeira vista, os filmes se pareçam em termos de temas, enquadramentos, enfoques e personagens, há uma distinção singular em cada uma das obras, que torna mais rica a cada leitura subsequente.

As narrativas de Hong Sang-soo são sempre bipartidas, como se a proposição de Alain Resnais com o duo “Smoking” e “No Smoking” (1993) – sobre fumar ou não um cigarro, e como isso muda inteiramente a narrativa – fosse a única possibilidade. Não há o peso da teoria do efeito borboleta, no qual o bater ou não de asas de uma borboleta pode gerar o caos, porque para Hong a vida é repleta de banalidades, de caminhos tortuosos, que se entrecruzam. Se algo não deu certo, por que não recomeçar? O que foi errado antes pode estar certo agora?

Ao questionar para um amigo sobre sua relação amorosa, homem coloca em xeque a postura de sua namorada: “ela bebe muito. Não sei o que fazer.” Em um longo plano-sequência com diálogos variando entre a comicidade, ironia e drama, o cineasta apresenta seus temas: o amor, a incerteza e a cerveja. Esse indivíduo só vai entrar em uma espiral decadentista ao rechaçar esse amor possível.

O cinema de Hong Sang-soo não é o da metáfora, da parte pelo todo. O cinema desse autor é o jogo de espelhos no qual o espectador enxerga a si mesmo, sem a necessidade de ruptura da quarta parede. Ao transitar entre sonho e realidade, dois planos que parecem não se cruzar, o filme “Você e os Seus” (2016) apresenta uma subversão no esquema de conquista e sedução: a mulher assume a persona de uma suposta irmã gêmea e, com isso, pode encenar diante dos pretendentes, e ser exatamente aquilo que imaginava desde o início; livre. É assim que diversos homens são atraídos por sua beleza e dubiedade. Para ela, o agora já passou e o futuro não tem nome.

É curioso observar como cada coadjuvante ganha vida na narrativa. O melhor exemplo está no núcleo do bar em que os comentários sobre a postura da moça vão ganhando ares de preconceito e também de comédia. Hong trabalha bem o fora de quadro e é um dos poucos diretores a usar o zoom com propriedade, sem um esteticismo vazio. Muito do cômico surge exatamente do trabalho de decupagem, de como se pensa cada plano para articular o fluxo cênico.

Quanto mais simples pode parecer o roteiro de “Você e os Seus”, e do cinema de Sang-soo como um todo, mais complexo ele se torna. Em meio ao espelhamento e a duplicidade, o espectador é levado a diferentes leituras. Mas que bom seria descobrir num ente querido outra pessoa que no final sempre foi a mesma. A vida tem dessas coisas, e como diria o próprio Hong Sang-soo: “Não há nada mais importante do que o amor e a cerveja.”


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