O Mentor, Nelson Pereira dos Santos

O Mentor, Nelson Pereira dos Santos

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- 24/04/2020 11:40:12

 

Nelson Pereira dos Santos nasceu no dia 22 de outubro de 1928 em São Paulo e teve contato com filmes desde a sua infância. Seus pais eram cinéfilos e levavam ele e seus irmãos ao cinema com frequência. Uma vez seu irmão Saturnino descreveu um ritual de domingo ao estar em uma casa de cinema em São Paulo. Ele afirmou: “Quatro horas de filmes, de 1 à 5, e isso continuou por anos. Vimos todos os filmes considerados hoje os grandes clássicos da época”. 
Nelson já estava encontrando sua paixão pelo cinema, em sua maioria clássicos hollywoodianos como produções de Charles Chaplin. Já no ensino médio, ele também se sensibilizou com os problemas econômicos do Brasil e ingressou no Partido Comunista Brasileiro em 1945. Nelson começou a ler escritores brasileiros como Jorge Amado e Graciliano Ramos, cujo romance Vidas Secas, sobre uma família no nordeste do país, foi adaptado para um longa-metragem em 1963 pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos e se tornou uma das maiores obras-primas do cinema brasileiro. Apesar da influência com filmes, os pais de Nelson queriam que ele seguisse carreira em direito, mas Nelson decidiu ir para Paris para estudar cinema e, segundo ele, seus pais nunca superaram essa mudança. 

Enquanto estudante, logo começou a fazer seu primeiro trabalho cinematográfico, o documentário Juventude (1949), e trabalhou como assistente de direção em diversos filmes até conseguir fazer o seu próprio longa-metragem, o clássico Rio 40 Graus (1955). Filmado em estilo documentário e evitando cenários elaborados em favor de câmeras de mão, iluminação natural e paisagens reais, o longa se tornou a principal obra a inspirar a nascença do movimento Cinema Novo e os novos cineastas brasileiros que estavam por vir.

O golpe militar aconteceu no Brasil em 1964 e se mostrou prejudicial para o Cinema Novo, com suas inclinações populista e marxista. Nelson chegou a dizer: "Meus filmes foram proibidos pelos militares porque mostravam a realidade do Brasil". Apesar disso, continuou fazendo filmes mudando seu estilo. "Meus filmes eram constantemente sujeitos a censura", disse Nelson, "então eu tive que me concentrar mais em obras metafóricas para mostrar a realidade da vida sob um regime militar". Um exemplo disso foi o filme metafórico Como Era Gostoso Meu Francês (1971). Um comentário sobre o que os europeus fizeram com os sul-americanos nativos, onde marinheiros portugueses jogam um francês no mar e ele acaba em uma ilha do Brasil povoada por canibais.

Durante grande parte de sua carreira, Nelson lamentou a falta de recursos financeiros disponíveis para os cineastas brasileiros, assim como a preferência contínua dos proprietários por filmes de Hollywood em relação aos filmes locais. "Os cinemas no Brasil são completamente dominados pelo cinema norte-americano", disse ele em uma entrevista em 2000. "É impossível para o cinema brasileiro se tornar auto suficiente neste contexto”. A denúncia também refletia sua preocupação de longa data com os grupos empobrecidos da população do país. Na mesma entrevista, disse “Quando a grande massa de brasileiros sem sapatos e sem recursos para entrar em uma sala de cinema se tornar parte do mercado consumidor, nosso cinema explodirá e será preferido pelas pessoas. Porque é nossa, porque fala a nossa língua e reflete nossos seres mais íntimos e a realidade”.
A notável carreira de cinco décadas de Nelson Pereira dos Santos teve seus pontos altos e baixos. No início de sua carreira, influenciado pelo Neorrealismo e, ao mesmo tempo, censurado pelo governo, ele foi, sem dúvida, o mais criativo, inovador e corajoso na maneira como apresentava e tratava seus súditos e representava seus personagens. No entanto, continuou a seguir sua paixão pelo realismo e sua busca por novas maneiras de contar uma história brasileira. Ao decorrer de sua carreira por mais de 50 anos, Nelson se tornou um dos mais importantes nomes da história do cinema brasileiro e foi de enorme influência para os cineastas brasileiros e latino-americanos.

Desde 1965, Santos transmitiu seu conhecimento e experiência como cineasta através de seu papel como professor de cinema em universidades e instituições no Brasil e nos Estados Unidos. Ele ganhou honras de prestígio no Brasil, Cuba e Portugal, além de muitos prêmios internacionais em festivais de cinema como Cannes, Berlim, Veneza e diversos outros. Além disso, foi homenageado por retrospectivas de seu trabalho em todo o mundo. Na França, recebeu os distintos títulos de Comandante da Ordem das Artes e das Letras e Cavaleiro da Legião de Honra.

Nelson faleceu aos 89 anos de idade no dia 21 de Abril de 2018 por conta de um câncer de fígado. Seu velório aconteceu na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, e recebeu uma homenagem no Oscar de 2019, no segmento In Memoriam.


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