O Pacifista, Masaki Kobayashi

O Pacifista, Masaki Kobayashi

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- 22/05/2020 10:54:11

Masaki Kobayashi nasceu no dia 14 de Janeiro de 1916 e passou sua juventude na ilha norte de Hokkaido, no Japão, na cidade portuária de Otaru. Em 1933, Kobayashi entrou na Universidade Waseda, em Tóquio, onde começou os estudos de filosofia e arte e estava particularmente interessado em escultura budista. Ele planejava continuar estudando história da arte, mas a Guerra do Pacífico havia começado. Kobayashi afirmou no World Film Directors: “Na história da arte, eu sabia que exigiria muitos anos de pesquisa minuciosa para que eu desse uma contribuição, e a guerra tornou o futuro muito incerto, mas com cinema, pensei que poderia haver uma chance de deixar algo para trás”.

Após a sua formatura em 1941, Kobayashi foi trabalhar na Shochiku Film Company em Ofuna, porém seu trabalho durou pouco com o envolvimento japonês na Segunda Guerra Mundial. Kobayashi, que é frequentemente descrito pelos historiadores de cinema como tendo sido um pacifista, foi convocado pelo Exército Imperial Japonês em 1942. Ele detestava os militares e, como forma de protesto, Kobayashi recusou todas as promoções oferecidas a ele. Primeiro ele foi enviado para o combate na Manchúria, e depois foi enviado para as ilhas Ryukyu. Kobayashi foi capturado e levado como prisioneiro de guerra em Okinawa, onde permaneceu até o fim da guerra.
 

Após a guerra, Kobayashi conseguiu retomar sua carreira no cinema e juntar-se à equipe dos estúdios de Shochiku. A partir de novembro de 1946, ele começou o que seria um aprendizado de seis anos como diretor assistente. Kobayashi trabalhou com Keisuke Kinoshita em 15 filmes. Kinoshita não era apenas o supervisor de Kobayashi, ele também atuou como seu mentor, e ambos escreveram um filme juntos em 1949.
 

Kobayashi estreou na direção em Novembro de 1952 com Musoko no seishun. O filme seguiu uma família de classe média com dois filhos adolescentes que estavam prestes a sair em seus primeiros encontros. No trabalho seguinte de Kobayashi, ele usou um roteiro escrito por seu mentor intitulado Magakoro (1953). O roteiro foi um presente dado por Kinoshita para comemorar a promoção de Kobayashi dentro do estúdio. Seus primeiros filmes são vistos como mais parecidos com o estilo de seu mentor, Kinoshita, do que seu próprio estilo. Porém Kobayashi já sabia o que queria fazer como diretor, e então neste mesmo ano, Kobayashi decidiu que era hora de trabalhar por conta própria.

O resultado foi um filme feito de forma independente, chamado O Quarto de Paredes Espessas (1953). Para a realização deste filme, Kobayashi fundou sua própria produtora, a Shinei Productions, e a Shochiku Film Company concordou em distribuir o filme. O tema que ele escolheu examinar para este filme foi um olhar incerto das atrocidades japonesas da guerra. O roteiro, do romancista Kobo Abê, foi baseado nos diários de criminosos de guerra japoneses de nível inferior. O filme não foi lançado até 1956. O estúdio temia ofender os americanos com o assunto. Por fim, o filme ganhou o Prêmio da Cultura da Paz do país naquele ano.

 

Kobayashi fez mais quatro filmes com a Shochiku. Em 1956, Kobayashi se considerava suficientemente bem estabelecido em sua carreira, confortável o suficiente para fazer o que seria um filme controverso sobre corrupção no beisebol profissional, Te Comprarei (1956). O filme que se seguiu não foi menos controverso, Rio Negro (1957), que foi outra exposição. Desta vez, Kobayashi abordou a corrupção e os elementos criminosos que cercavam as bases militares no Japão.
 

A controvérsia que esses filmes provocaram pareceu menor em comparação com a controvérsia causada pelo épico filme Guerra e Humanidade (1959). O cenário épico da Segunda Guerra Mundial foi baseado no romance de seis volumes de Jumpei Gomikawa. O filme segue um único personagem desde o período da ocupação japonesa da Manchúria até a captura de soldados japoneses pelos russos em 1945, após a rendição japonesa.

Kobayashi decidiu dividir o filme em três partes, cada parte com três horas ou mais de duração. O filme foi incluído no Livro Guinness dos Recordes como o filme mais longo que existe na época. O primeiro filme da trilogia é conhecido como Guerra e Humanidade I - Não Há Amor Maior (1959), ambientado em 1943. Ganhou o Prêmio San Giorgio no Festival de Veneza e é considerado uma obra-prima. Os outros dois filmes da trilogia são Guerra e Humanidade II - Estrada Para a Eternidade (1959) e Guerra e Humanidade III - Uma Prece de Soldado (1961).
 

Em 1962, Kobayashi faria dois filmes. A Herança e Harakiri. O segundo sendo considerado mais uma grande obra de arte e um dos melhores filmes do cinema japonês. O filme conta a história de Hanshirō Tsugumo, um guerreiro sem senhor. Na época, era comum que os samurais sem mestre, ou rōnin, solicitassem cometer harakiri (uma forma de suicídio ritual japonês por estripação) no pátio do palácio, na esperança de receber esmolas dos demais senhores feudais. Harakiri ganhou o prêmio especial do Júri no Festival de Cannes de 1963 e ganhou um remake bem-sucedido em 2011 dirigido por Takashi Miike e nomeado Hara-Kiri: Morte de Um Samurai.
 

O auge de Kobayashi não pararia por aí. Seu próximo filme seria de grande orçamento e um sucesso de bilheteria. Kwaidan - As Quatro Faces do Medo (1964), um filme composto por quatro histórias de fantasmas distintas de Lafcadio Hearn, baseadas em contos japoneses tradicionais. O projeto estava no planejamento há anos. Com Kwaidan, Kobayashi também abandonou o estilo realista sombrio pelo qual ele se tornou conhecido em favor de explorar a beleza de uma maneira mais estilizada. Foi também seu primeiro filme colorido e é considerado o mais bem-sucedido. O longa ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes. Seu trabalho na década de 1960 estava sendo considerado entre os melhores, concluindo a década com mais dois filmes bem-sucedidos, Rebelião (1967) e Hymn to a Tired Man (1968)

Mas os anos 70 foram difíceis para Kobayashi. Seus filmes foram rejeitados pelos estúdios por suas críticas sociais. A indústria tomou uma direção distintamente diferente, favorecendo os filmes de exploração em vez de arte séria. Kobayashi, Akira Kurosawa e outros dois cineastas formaram Yonki no Kai (O Clube dos Quatro Cavaleiros) que por falta de consenso entre o grupo e o fracasso de seus projetos, se encerrou após apenas um filme de cada participante. Para Kobayashi, o resultado disso foi Fóssil, um filme de televisão baseado no livro de Yasushi Inoue. O projeto consistiu em oito partes de uma hora. As filmagens levaram Kobayashi para diferentes locais, incluindo a Europa. O projeto foi ao ar na televisão em 1972. Mais tarde, a série foi editada para 213 minutos e lançada como longa-metragem em 1975.
 

O próximo projeto de Kobayashi, Glowing Autumn (1979) foi considerado um grande fracasso, mas o diretor se redimiu com o filme Tokyo Trial (1983), um épico documental de quatro horas e meia. O filme narra os eventos da contraparte do Pacífico nos julgamentos de Nuremberg após a Segunda Guerra Mundial. Para este documentário, Kobayashi vasculhou milhares de bobinas de imagens noticiosas, incluindo 30.000 bobinas do Pentágono dos Estados Unidos. O longa ganhou o Prêmio FIRPRESI no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 1985.
 

O último filme de Kobayashi seria feito em 1985, Family Without a Dinner Table, encerrando a carreira do cineasta japonês. O trabalho é fictício, baseado em eventos reais que envolvem um impasse entre a polícia e terroristas japoneses radicais. No filme, muitos dos pais dos radicais são mostrados se desculpando publicamente por seus filhos.
 

Kobayashi viveu por mais onze anos, até quando faleceu em 1996, aos 80 anos de idade. Kobayashi era conhecido como perfeccionista. Ele usava todo o tempo que precisasse no set, possivelmente completando apenas três tomadas finais em um dia de trabalho, o que era considerado um ritmo lento para um diretor. Cada um de seus filmes foi cuidadosamente elaborado e ele chegou a também pintar sets, sempre tendo o cuidado com cada mínimo detalhe.
 

Em um site dedicado a uma retrospectiva de Kobayashi na Universidade de Columbia, o corpus de seu trabalho é descrito como sendo baseado em suas experiências durante a guerra. “Seja dramas históricos ou histórias ambientadas no Japão moderno, eles refletem a rejeição do diretor à autoridade militar ou social exercida às custas do indivíduo. Poucos artistas de qualquer época ou cultura argumentaram com mais paixão do que Kobayashi contra o abuso de poder. Nenhum revelou mais dramaticamente o custo desse poder para uma sociedade ou um indivíduo”.


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