Louis Malle, O Autor Viajante

Louis Malle, O Autor Viajante

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- 20/07/2020 13:29:36


Louis Malle nasceu em 30 de outubro de 1932 em Thumeries, no norte da França, e cresceu em uma família grande e burguesa, proprietária da fábrica Béghin-Say. Aos 11 anos, Malle presenciou deportação de um de seus professores judeus e três estudantes judeus, inclusive seu melhor amigo, para o campo de concentração nazista em Auschwitz. Tal acontecimento influenciou Malle a fazer o seu filme autobiográfico, Adeus, Meninos (1987).

Depois de sair da escola, Malle iniciou um curso de ciências políticas no Institute D'Etudes Politiques em Paris. Porém, contra a vontade de seus pais, mudou para um curso de estudos de cinema no Institut des Hautes Etudes Cinematographiques. Enquanto ainda era estudante, Malle foi contratado como operador de câmera por Jacques Cousteau e trabalhou como co-diretor no célebre documentário de Cousteau, O Mundo Silencioso (1956), que ganhou um Oscar e a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Malle também trabalhou como assistente do diretor Robert Bresson em Um Condenado à Morte Escapou (1956).

À margem da nascença da Nouvelle Vague, Malle dirigiu seu primeiro longa-metragem aos 25 anos, Ascensor Para o Cadafalso (1958). Seu primeiro filme foi aclamado e, com notável trilha sonora com composição e improvisação da lenda do jazz, Miles Davis, foi premiado pelo Prêmio Louis Delluc em 1957. O filme foi protagonizado pela nova estrela do cinema francês, Jeanne Moreau, que trabalhou novamente com Malle em seu segundo filme, Os Amantes (1958). O filme lidava com temas delicados para a época e foi escandaloso por causa de seu conteúdo explícito. Nos Estados Unidos, o longa foi proibido em vários estados, levando a um caso histórico da Suprema Corte dos EUA em relação à definição legal de ‘obscenidade’. O escândalo ajudou o filme a se tornar um fenômeno mundial, transformando Moreau em uma grande estrela e Malle, com apenas 26 anos de idade, em um diretor de renome.

A comédia Zazie no metrô (1960) foi seu terceiro longa-metragem. Essa adaptação burlesca do livro de Raymond Queneau foi considerada por muitos, na época, um projeto impossível, mas Malle decidiu aceitar o desafio, pois acreditava que isso lhe daria a chance de explorar a linguagem cinematográfica de uma maneira que ele não era capaz anteriormente. O resultado foi uma comédia cheia de inteligência e invenção que influenciou bastante a nova tendência de estilo e técnica que surgiu na indústria  na década seguinte. Um dos críticos que aclamou o filme foi François Truffaut, que estava se tornando uma das faces da Nouvelle Vague. 

Embora Malle não fosse membro do círculo interno da Nouvelle Vague, foi da mesma geração e tinha muito em comum com os outros diretores, em particular um amor pelo cinema de autoria e um desejo de romper com o que havia se tornado rotina no cinema francês da época. Com o filme Vida Privada (1962), Malle trabalhou com Brigitte Bardot, apesar de ter sido avisado sobre as dificuldades de trabalhar com a atriz. Além disso, Malle também encontrou dificuldades com a imprensa e com o estúdio querendo interferir em seu trabalho. Desse modo, o longa acabou sendo a primeira decepção de sua carreira. Em Viva Maria! (1965), Malle voltou a trabalhar com Brigitte Bardot e também com Jeanne Moreau.

Filme após filme, Malle continuou a explorar gêneros, incluindo documentários. Trinta Anos Esta No
ite (1963) contou com uma performance emocionante de Maurice Ronet no papel principal. O filme foi muito elogiado e ganhou o Prêmio do Júri Especial no Festival de Veneza de 1963. Malle descreveu o filme como um de seus trabalhos mais pessoais e o primeiro com o qual ele estava completamente feliz. O seu próximo projeto foi O Ladrão Aventureiro (1967), baseado em um livro semi autobiográfico de Georges Darien. Apesar da produção de luxo e da boa performance do aclamado ator Jean-Paul Belmondo, o filme não foi bem recebido. No entanto, Malle afirmou estar orgulhoso do filme e o longa cresceu em ao longo dos anos.

Na mesma época, Malle passou por uma crise em sua vida pessoal após o rompimento de seu casamento e se sentiu inseguro sobre o rumo de sua carreira. A fim de se afastar da França por um tempo, concordou em dirigir o famoso ator Alain Delon em um dos três segmentos de um filme filmado na Itália e baseado em histórias de Edgar Allan Poe. Trabalhar com Delon foi uma grande dificuldade e, depois de concluir o trabalho em Histórias Extraordinárias (1968), se sentiu mais desiludido com o ramo cinematográfico do que nunca, dizendo na época que estava farto de atores, estúdios, ficção e Paris.

Então, no outono de 1967, foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores da França a apresentar uma série de oito filmes franceses na Índia. Lá, ficou fascinado com o país e, no início do ano seguinte, voltou com uma pequena equipe para filmar um documentário. Após mergulhar na vida e na cultura da Índia por seis meses, terminando com 30 horas de material que foram editados, ao longo de um ano, no longa-metragem Calcutá (1969) e em uma série de TV de sete partes chamada Índia Fantasma (1969). Os filmes provocaram controvérsia na Índia, quando foram exibidos na BBC, por se concentrarem demais na pobreza do país. Outros, no entanto, ficaram encantados com as imagens dos documentários e muitos foram inspirados a visitar o país. O próprio diretor considerava seus filmes na Índia os mais pessoais de sua carreira e os filmes dos quais mais se orgulhava.

Após a experiência na Índia, Malle embarcou na década de 1970 com seus três próximos filmes na França. O primeiro deles foi O Sopro do Coração (1971), que causou controvérsia na época. Seu próximo filme foi igualmente controverso, mas em um nível político, a experiência da guerra e a colaboração da França. Lacombe Lucien (1974) é sobre um adolescente de uma família de camponeses que, por uma série de acidentes, começa a trabalhar para a Gestapo (polícia secreta do Estado que apoiava o nazismo) em uma pequena cidade. O filme foi inovador porque foi o primeiro a lidar com a questão da colaboração na França em tempos de guerra, desafiando o mito de que a maioria das pessoas resistia à ocupação nazista e provocando muito debate na França em seu lançamento. Em seguida, Lua Negra (1975) foi uma fantasia surreal sombria ambientada em um futuro distópico, filmado pelo diretor em sua propriedade rural e nos arredores. Malle descreveu o filme como “uma viagem estranha aos limites do espiritualismo".

No final dos anos 70, em busca de inspiração, Malle se mudou para os Estados Unidos. O primeiro filme que dirigiu foi Pretty Baby – Menina Bonita (1978), no qual Brooke Shields interpretou uma prostituta de 12 anos de Nova Orleans. Mais uma vez, os jornais do mundo aproveitaram os aspectos sensacionalistas da história. Porém, o filme era sobre atmosfera e natureza do desejo, não sobre o erotismo. A seguir, Malle dirigiu Atlantic City (1980), frequentemente citado como seu melhor filme americano. O longa ganhou inúmeros prêmios internacionais, incluindo o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Malle também recebeu muitos elogios pelo filme que veio em seguida, Meu Jantar com André (1982), um filme de 90 minutos que, em sua maior parte, é todo feito em restaurantes com dois personagens conversando. Através da habilidade do diretor, o filme conseguiu manter o público interessado em acompanhar a longa conversa. No entanto, seus dois próximos filmes americanos, Alta Incompetência (1984) e A Baía do ódio (1985), não foram bem recebidos pela crítica e pelo público.

Depois de sua aventura nos Estados Unidos, Malle retornou à França e dirigiu o filme que se tornou seu maior sucesso de público e crítica, Adeus, Meninos (1987). A ocupação nazista é o tema central do filme, mas com um olhar muito diferente de Lacombe Lucien. O filme conta esse período sombrio da história através do ponto de vista de dois meninos que se tornam amigos - um dos dois meninos é judeu e se refugia em um colégio católico. A história é parcialmente autobiográfica, baseado em quando Malle testemunhou uma situação semelhante em sua juventude. O longa venceu 7 prêmios no César Awards, importante premiação francesa, além de receber o Leão de Ouro no Festival de Veneza e ser nomeado no Oscar nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original.

Esse grande sucesso foi seguido pela brilhante e satírica comédia Loucuras de uma Primavera (1990). Seus dois últimos filmes foram Perdas e Danos (1992) e Tio Vanya, uma adaptação moderna da peça de Anton Tchekhov, um dos maiores nomes do teatro mundial. Ambos os filmes foram gravados fora da França, em Londres e Nova York, respectivamente.

Louis Malle morreu de câncer aos 63 anos de idade, em 23 de novembro de 1995, na Califórnia. Malle deixou um grande legado na história do cinema francês e teve muita influência na indústria cinematográfica mundial.


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