O Poeta de Hong Kong, Wong Kar-wai

O Poeta de Hong Kong, Wong Kar-wai

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- 18/05/2020 10:26:01

Wong Kar-wai (王家衛) nasceu no dia 17 de Julho de 1958, em Xangai na China. Quando Wong tinha cinco anos, a Revolução Cultural estava começando a entrar em vigor na China e seus pais decidiram se mudar para Hong Kong, governada pelos britânicos. Os seus dois irmãos mais velhos deveriam se juntar a eles mais tarde, mas as fronteiras fecharam antes que eles tivessem uma chance e Wong não viu seu irmão e irmã novamente por dez anos. A família de Wong emigrou de Xangai para Hong Kong em 1963. Para o povo xangainês, a assimilação dos diferentes dialetos e culturas de Hong Kong foi difícil, e as primeiras experiências da vida de Wong na década de 1960 deixaram uma grande marca em sua vida, o influenciando a usar os anos 1960 em três de seus filmes.
Durante sua infância, Wong afirmou que seu único hobby era assistir filmes, e sua mãe o levara frequentemente ao cinema. Wong estudou design gráfico na Politécnica de Hong Kong (Posteriormente conhecida como Universidade Politécnica de Hong Kong). Ele ingressou em um curso para futuros designers de produção e diretores da rede de televisão TVB, mas acabou trabalhando como roteirista, e trabalhou em diversas séries de tv e novelas, e depois passou a escreveu para dezenas de filmes, apesar de não receber créditos pela maioria dos trabalhos. Wong encontrou um mentor no diretor Patrick Tam e contribuiu para o roteiro de Final Victory (1987) e por seu trabalho, recebeu uma nomeação na sétima edição do Hong Kong Film Awards.

Em 1987, a indústria cinematográfica de Hong Kong estava no auge, desfrutando de um nível considerável de prosperidade e produtividade.  Novos diretores eram necessários para manter esse sucesso e Wong foi convidado a se tornar sócio de uma nova empresa independente, a In-Gear, e teve a oportunidade de dirigir seu próprio filme. Conflito Mortal (1988) foi o primeiro filme de Wong como diretor, onde um jovem está dividido entre o amor pelo primo e a amizade com o impetuoso irmão da Tríade. O elenco contou com jovens ídolos do momento em Hong Kong como Andy Lau, Maggie Cheung e Jacky Cheung, e o filme foi o mais convencional de Wong em termos de estilo e narrativa, porém já apresentou algumas características de seus trabalhos posteriores, como sua forma de marca registrada de câmera lenta pulsante e um uso expressivo da música popular. E o filme recebeu uma boa recepção de público.

Dias Selvagens (1990) foi o primeiro filme em que Wong utilizou locução de vários personagens e uma estrutura complexa e fragmentada da história, ambas sendo assinaturas de seu estilo que estava se desenvolvendo e pelo o qual é aclamado. Também foi seu primeiro filme com dois de seus principais colaboradores, o diretor de fotografia Christopher Doyle e o ator Tony Leung Chiu-wai, que se tornou um dos maiores atores do país. Situado em 1960, o tempo surge primeiro como um tema importante no trabalho de Wong em Dias Selvagens, com diversas fotos de relógios. Devido às exigências técnicas de filmagem em uma paleta de cores suaves, a produção do filme levou dois anos, uma raridade na indústria cinematográfica de Hong Kong. Embora o filme tenha sido um fracasso comercial, foi altamente aclamado por alguns críticos internacionais e ganhou vários prêmios em Hong Kong. Esse padrão de baixa recepção nas bilheterias e grandes elogios internacionais tornou-se consistente na carreira de Wong.

Wong voltou a escrever roteiros para outros diretores até levantar dinheiro suficiente para financiar uma adaptação cinematográfica da aventura de artes marciais Eagle-Shooting Heroes (1957) do romancista popular Jin Yong. Essa versão cinematográfica, Cinzas do Passado (1994), levou dois anos para ser produzida, pois Wong preferia um estilo improvisado de filmagem, sem um roteiro finalizado, que muitas vezes levava a longas filmagens. Com sua narrativa desarticulada e suas cenas de ação embaçadas e impressionistas, Cinzas do Passado dividiu críticos e audiências, alguns dos quais viam o filme como uma reimaginação surpreendente de uma aventura des artes marciais, enquanto outros o rejeitavam como um repúdio pretensioso ao gênero.

Durante um intervalo de dois meses na produção de Cinzas do Passado, Wong filmou Amores Expressos (1994), que apresenta duas histórias não relacionadas de amor não correspondido e conexões românticas perdidas envolvendo dois policiais. Wong afirmou a necessidade de que precisava fazer algo que o fizesse se sentir confortável a fazer filmes novamente após os estresses das gravações e cobranças de financiadores de Cinzas do Passado. E Wong disse que fez Amores Expressos como um filme de estudante, e desenvolveu e concluído o longa em apenas seis semanas. O seu estilo artístico foi mais marcante e altamente notado pelo público e a crítica, e a partir dali o trazendo notoriedade internacional com sua marca artística única e autêntica. O filme foi nomeado a Melhor Filme no Hong Kong Film Awards de 1995 e Wong recebeu o prêmio de Melhor Diretor.

Previamente, Amores Expressos foi desenvolvido para ter três histórias, porém Wong cortou a terceira história que se tornou o próximo filme, Anjos Caídos (1995), que também foi estruturado em duas histórias. O longa, com suas notórias filmagens em grande angular e edições de jumpcut, é o mais estilizado dos filmes de Wong até então. E Wong afirma que Amores Expressos e Anjos Caídos são filmes complementários um ao outro, e ele enxerga ambos como um único grande filme de 3 horas de duração.
Seu próximo filme, Felizes Juntos (1997) foi filmado em Buenos Aires e foi inicialmente concebido como uma adaptação do romance policial de Manuel Puig, The Buenos Aires Affair (1973). Felizes Juntos narra o caso de amor desintegrador entre dois expatriados em Hong Kong. Wong estava interessado em apresentar o relacionamento dos personagens como comum e universal, como ele achava que os filmes LGBT anteriores de Hong Kong não tinham feito. O trabalho de Wong no filme lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor no festival de Cannes de 1997, o primeiro diretor de Hong Kong a ganhar o prêmio.

Wong voltou a usar a Hong Kong dos anos 60 em seu roteiro para Amor à Flor da Pele (2000), que diz respeito ao crescente vínculo entre o personagem interpretado por Tony Leung (Chow) e a personagem de Maggie Cheung (Su), um homem e uma mulher cujos cônjuges estão tendo um caso escondido. A trilha exuberante do filme e as recriações detalhadas de modas e interiores da década de 1960, bem como as performances contidas e emocionais de Cheung e Leung, conquistaram a aclamação instantânea de muitos como uma das grandes histórias de amor do cinema. E com o filme, Wong é dito ter alcançado o auge de sua arte cinematográfica e o colocando de vez como um dos principais e mais notórios diretores artísticos do cinema contemporâneo. Tendo finalizado a edição do longa apenas na manhã da premiere no Festival de Cannes, Wong disse após o seu lançamento: "Amor à Flor da Pele é o filme mais difícil da minha carreira até agora e um dos mais importantes. Estou muito orgulhoso desse trabalho". E nos anos seguintes, o filme foi incluído em diversas listas de críticos como um dos melhores filmes de todos os tempos.

No próximo filme de Wong, 2046 - Os Segredos do Amor (2004), uma sequência de Amor à Flor da Pele, Chow tenta esquecer seu amor por Su ao se envolver em uma série de curtos casos. O título se refere tanto ao romance de ficção científica que Chow está escrevendo, alguns dos quais estão retratados no filme, quanto ao ano final da autonomia de Hong Kong como uma região administrativa especial da China. O filme é repleto de alusões a muitos dos filmes anteriores de Wong, tornando-o como uma espécie de resumo de sua carreira. Foi dito que ele estabeleceu um novo recorde em seu próprio método de cinema de pensamento livre, com tempo extenso e improvisado com a produção do filme, e foi a produção mais cara e mais longa de sua carreira. Wong entregou o filme ao Festival de Cannes com 24 horas de atraso e ainda assim não ficou satisfeito com o resultado final até o lançamento ao público meses depois. O filme foi um fracasso comercial em Hong Kong, porém recebeu elogios de críticos internacionais.

Antes de trabalhar em seu próximo filme, Wong foi convidado a trabalhar em um filme de antologias chamado Eros (2004), onde ele fez um de três curta-metragens com Michelangelo Antonioni e Steven Soderbergh. O seu segmento foi chamado The Hand e protagonizado por Gong Li, uma das maiores atrizes chinesas, e seu segmento foi o mais aclamado entre os três.

Para seu próximo filme, Wong queria uma experiência simples e revigorante, e então decidiu aceitar fazer o seu primeiro filme em inglês com sua produção nos Estados Unidos. O longa foi Um Beijo Roubado (2007) estrelado pela cantora Norah Jones. Wong teve sua quarta participação consecutiva na competição pela Palma de Ouro em Cannes, porém o filme foi uma rara decepção crítica e comercial para Wong, sendo considerado o primeiro grande fracasso de sua carreira.

Em 2008, Wong lançou uma nova versão de Cinzas do Passado, uma versão reduzida e restaurada com uma nova trilha sonora, e cinco anos depois, Wong retornou ao gênero das artes marciais com O Grande Mestre (2013), uma biografia do artista marcial Yip Man, interpretado por Tony Leung em seu sétimo filme juntos, que foi mais conhecido internacionalmente como o treinador de Bruce Lee, porém tratado como uma figura lendária em Hong Kong. Leung passou 18 meses em intenso treinamento para o papel, e a produção do filme levou cerca de três anos, tendo que ter paralisado por conta de um braço quebrado do ator e pela dificuldade das gravações da produção que se tornou a mais cara da carreira de Wong. O filme foi elogiado pela crítica, recebeu diversos prêmios em Hong Kong e se tornou o maior sucesso de público de sua carreira, além de ter recebido duas nomeações na premiação da Academia do Oscar.
Desde então, Wong foi passando de projeto a projeto entre filmes e séries que acabaram não acontecendo. Seu próximo projeto a acontecer será a produção chinesa, Blossoms, baseado no livro de Jin Yucheng, que se concentra em inúmeros personagens em Xangai, entre os anos 1960 e 2000. Wong dirigirá o filme que começará a produção em Julho deste ano na China, com a indústria cinematográfica chinesa abrindo suas portas ao poucos ao se recuperar da pandemia da COVID-19.  E além de dirigir o filme, Wong também produzirá uma série de 30 episódios baseado no mesmo livro para a plataforma de streaming Tencent Video, e também se chamará “Blossoms”.

Wong é inegavelmente um grande autor de cinema artístico, poético e único, destacando-se de grande parte do cinema tradicional de Hong Kong. Wong pertence aos cineastas do movimento cinematográfico da Segunda Nova Onda de Hong Kong, que se iniciou em meados dos anos 80, e continuaram a desenvolver a estética inovadora iniciada pela Nova Onda original. Em sua filmografia, usando um cinema poético, Wong cria um mundo interno no qual o tempo é homogêneo e efêmero. Seus protagonistas são capturados em uma paisagem quase onírica, onde o tempo e a memória não podem ser garantidos. A música também é um elemento proeminente e estratégico em todos os filmes de Wong. A repetição musical é frequentemente empregada para articular o que não é dito ou o que não pode ser expresso por meio de palavras e diálogo.
Além disso, a desestruturação e modernização de gêneros de Wong envolve a reinterpretação, um processo no qual a música é central. O isolamento de seus personagens geralmente dá lugar a locuções em que o status de seu personagem como um desajustado é constantemente reiterado. O espaço alienante da cidade é frequentemente o pano de fundo para os habitantes que lutam para articular mentalmente seu próprio senso de lugar e identidade na paisagem urbana. Isso se traduz em uma reprodução visual de cores profundamente encharcadas e filmagens estilizadas da câmera, na maioria das vezes realizadas pelo excelente trabalho de seu parceiro de longa data, Christopher Doyle. E com a combinação de todos esses ingredientes, Wong é colocado como um dos principais cineastas autorais do cinema mundial moderno.
Wong Kar-wai estará na Box #18, sobre Autores, com curadoria assinada pela plataforma de streaming MUBI. As inscrições vão até o dia 31/05 e você pode garantir a sua em www.rosebud.club

 

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