Sergei Eisenstein e suas técnicas de Montagem

Sergei Eisenstein e suas técnicas de Montagem

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- 16/02/2020 22:24:36

Um dos maiores diretores russos foi Sergei Eisenstein (1898 – 1948). Seu trabalho foi profundamente influente, pois, ele inventou técnicas radicais de edição, o ato de gravar imagens separadas e combiná-las em sequências dinâmicas. Eisenstein estudou arquitetura e engenharia no Instituto de Engenharia Civil de Petrogrado e, em 1920, se mudou para Moscou, onde começou sua carreira no teatro trabalhando para a Proletkult. Eisenstein tinha forte sensibilidade para o design e seu trabalho estava intimamente relacionado ao Construtivismo. 
 
Eisenstein foi pioneiro no uso da edição. Ele acreditava que a edição poderia ser usada para mais do que apenas contar uma história: a justaposição de tomadas independentes poderia criar novos significados. Eisenstein achava que a “colisão” de imagens poderia ser usada para manipular as emoções do público e criar metáforas. Essa ênfase na justaposição de imagens trouxe um elemento de colagem ao filme. Esse é o equivalente cinematográfico das fotomontagens de Varvara Stepanova. 
 
O primeiro longa-metragem de Eisenstein, chamado de “A Greve” (1925), conta a história de uma greve realizada por trabalha- dores de fábricas, em 1903, que foi esmagada pelas forças czaristas e o filme mostra isso, em sua sequência mais famosa. Os trabalhadores são levados para um campo pelo exército e disparados em massa. A cena é intercalada com imagens do gado sendo abatido. Esse é um exemplo da técnica de edição radical de Eisenstein: a colisão de imagens é usada para criar uma forte resposta emocional no espectador. Os animais são usados como metáforas para o sofrimento dos trabalhadores. O filme mais influente de Eisenstein é “Encouraçado Potemkin” (1925), o qual é baseado na história real de um motim que ocorreu em 1905, quando a tripulação do encouraçado russo chamado Potemkin se rebelou contra seus oficiais. O filme tem sido considerado o filme de propaganda mais influente de todos os tempos e também é considerado um dos melhores filmes já feitos.  A cena mais célebre é o massacre nos de- graus de Odessa. Essa é uma das sequências mais famosas da história do cinema e uma obra-prima de edição. A sequência é construída a partir de tomadas separadas combinadas de uma forma muito dinâmica e rítmica. Eisenstein editou o filme para produzir a maior resposta emocional, de modo que o espectador sentiria simpatia pelos marinheiros rebeldes do Potemkin e ódio por seus senhores dominadores. 

Os construtivistas soviéticos se organizaram na década de 1920 na “Frente de Esquerda das Artes”, que produziu a influente revista LEF. A revista teve dois momentos, de 1923 a 1951 e de 1927 a 1976, como Nova LEF. A LEF se dedicava a manter a vanguarda contra as críticas do incipiente realismo socialista e a possibilidade de uma restauração capitalista, com a revista sendo contundente com os “NEPmen”, os capitalistas do período. Para LEF, o novo meio de cinema era mais importante do que a pintura de cavale- te e as narrativas tradicionais que os elementos do Partido Comunista tentavam reviver naquela época. Importantes construtivistas estiveram muito envolvidos com o cinema, como Mayakovsky atuando no filme “The Young Lady e Hooligan” (1919); os desenhos de Rodchenko para os intertítulos e sequências animadas de “KinoEye” (1924), de Dziga Vertov e Aleksandra Ekster para os cenários e figurinos do filme de ficção científica “Aelita – A Rainha de Marte” (1924). 
 
Tal como as fotomontagens e os designs do construtivismo, o cinema soviético inicial se concentrou na criação de um efeito de agitação por montagem e “estranhamento” (ostranenie), a técnica artística de apresentar ao público coisas comuns de um modo pouco familiar ou estranho, a fim de melhorar a percepção do que é familiar. 
 
Eisenstein também estava fazendo seus próprios experimentos e apresentou uma técnica de montagem chamada “Montagem Soviética”. A “montagem” significa reunir imagens conflitantes, o que resulta em uma relação única e gera choque e expectativa para o público. Ele acreditava que, quanto mais conflitantes são as imagens, mais intelectual. Isso deixa o público em estado de choque e também desperta suas emoções internas. 
 
Em 1923, Eisenstein explicou que “Uma atração (em nosso diagnóstico de teatro) é qualquer momento agressivo no teatro, ou seja, qualquer elemento que submeta a audiência a uma influência emocional ou psicológica, verificada pela experiência e calculada matematicamente para produzir efeitos de choques emocionais específicos no espectador em sua ordem adequada dentro do todo. Esses choques fornecem a única oportunidade de perceber o aspecto ideológico do que está sendo mostrada, a conclusão ideológica final.” 
 
Já em 1929, em sua dissertação “BeyondtheShot”, Eisenstein explicou sua teoria da montagem da atração comparando uma montagem com os hieróglifos japoneses. Ele apontou que dois símbolos juntos criam um novo significado. A combinação de dois hieróglifos “da série mais simples não deve ser considerada como uma soma deles e, sim, como seu produto, isto é, como um valor de outra dimensão, de outro grau; cada um deles, separadamente, corresponde a um objeto, a um fato, mas sua combinação corresponde a um conceito.” A combinação de dois objetos “representáveis” consegue a representação de algo que não pode ser representado graficamente.’’ 

Sergei Eisenstein classificou a montagem em cinco tipos diferentes: 

Montagem Métrica 
É um estilo de montagem simples, em que as cenas longas são encurtadas para um comprimento chamado de “comprimento absoluto” das imagens sem afetar a essência da história original ou sua emoção. Esse tipo de montagem é usado para criar suspense e tensão que geralmente são rápidos e têm cortes abruptos que não têm continuidade, mas dão sentido à duração total da cena. 

Montagem Rítmica 
Em contraste com a Montagem Métrica, esse estilo de montagem se concentra no ritmo da ação realizada, tempo igual à duração real da gravação. Esse tipo elimina o salto inesperado e abrupto de uma imagem para outra. O Melhor exemplo de montagem rítmica é a cena dos Degraus de Odessa do filme “Encouraçado Potemkin” (1925) e a relação feita com soldados marchando pelos degraus em direção aos manifestantes. Cada passo dado adiante mostra as emoções do grupo de manifestantes que estão tentando fugir dos soldados despejando balas. 

Montagem Tonal 
Montagem Tonal se concentra na emoção de personagens sequenciados com outras imagens. Por exemplo, se a heroína do filme comete suicídio depois de um enorme desequilíbrio emocional, a cena de suicídio é substituída por um pedaço de pano vagando no ar. O pano à deriva transmite a mensagem da heroína caída. Tal tipo de cenas traz carga emocional ao filme. 

Montagem Overtonal 
O uso simultâneo de todas as três montagens acima – Métrica, Rítmica e Tonal – em uma mesma combinação forma a Montagem Overtonal, criando conflito entre as imagens. 

Montagem Intelectual 
A Montagem Intelectual envolve o uso dos quatro estilos de montagem e gera uma emoção complexa para o público, que fará do público o drama dos personagens na tela. Esse estilo de edição complexa pode ser visto no filme “A Greve” (1925). 


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