O Cinema Novo Brasileiro

O Cinema Novo Brasileiro

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- 15/05/2020 09:57:32

O Cinema Novo foi o maior movimento cinematográfico brasileiro com ênfase na igualdade social e intelectualismo que ganhou destaque no Brasil nas décadas de 1960 e 1970.

Influenciado pelo Neorrealismo Italiano e pela Nouvelle Vague e seguindo os passos do movimento francês - quando jovens cineastas estavam de protesto contra a atual condição do cinema nacional, dominado por comédias e filmes que copiavam as convenções e fórmulas Hollywoodiana. A indústria atual era tomada por produções consideradas por eles, puramente comerciais e sem propósito artístico e cultural, e grande parte dessas críticas era liderada pelo cineasta Carlos Diegues. Com o movimento a nascer entre o final de 1959 e o início de 1960, o Cinema Novo se tornou o ‘rótulo’ do movimento, com o filme Rio 40 Graus (1955) de Nelson Pereira dos Santos sendo considerado o grande precursor. 

 

Porém, tal rótulo foi criado por estudiosos e críticos de cinema, pois quando o movimento se iniciou, os cineastas não pensavam que estavam necessariamente fazendo um filme para o particular movimento, mas sim seguindo os novos ideais artísticos em ascendência no país. O que muito categorizava um filme a fazer parte do Cinema Novo foi a forma realista de representar a realidade social e política atual do país, incluindo o uso de atores amadores e filmagens em 16mm, assim influenciado pelo Neorrealismo Italiano. Muitos dos cineastas do Cinema Novo também estavam atraídos pela “teoria do autor”, o idealismo e a livre forma de se produzir filmes de baixíssimos orçamentos da Nouvelle Vague, dando liberdade artística ao que poderia se conquistar e alcançar com os seus filmes.
 

Fernão Pessoa Ramos, professor do departamento de cinema da Unicamp afirma que há três fatores essenciais para entender o Cinema Novo:

O primeiro é o aspecto estilístico, simbolizado pelo famoso lema de Glauber Rocha: "uma câmera na mão, uma ideia na cabeça", que sintetiza a nova experiência cinematográfica buscada pelos cineastas da época. O segundo é o novo modo de produção criado pelos diretores do país, com técnicas e recursos completamente originais. E, finalmente, o movimento foi caracterizado por seu aspecto geracional, marcado pela ascensão de jovens diretores que defendiam uma ruptura completa com o tipo de cinema produzido no país.

Ramos também explica que, além de inovar em aspectos artísticos, estéticos e ideológicos, o Cinema Novo também marcou uma era de modernização tecnológica no setor audiovisual nacional. Os novos equipamentos, técnicas e materiais que surgiram na década de 1960 foram fundamentais para o sucesso do movimento. O professor ainda afirma que “Não há ideologia sem novas técnicas. A parte tecnológica era essencial. As novas tecnologias de imagem e som que surgiram na década de 1960 variam de emulsão fotográfica à novas lentes, câmeras mais leves e som. Não se pode pensar no Cinema Novo sem essas novas tecnologias da década de 1960. Elas eram essenciais.”

Estes eram filmes políticos. Em um dos grandes marcos de Nelson Pereira dos Santos, Vidas Secas (1963), o diretor encontra dignidade na vida de protagonistas migrantes. Filmado em preto e branco de alto contraste com uma câmera de mão, Nelson nos dá a superexposição da região do sertão no nordeste do Brasil, a miséria e a fome. A miséria e a fome foram alguns dos principais temas abordados no movimento, além de abordar a desigualdade social, desigualdade racial e a grande diferença de vida entre os ricos e os pobres do país.
Um dos cineastas do Cinema Novo, Ruy Guerra, disse: "Estávamos fazendo filmes políticos quando a Nouvelle Vague ainda estava falando de amor não correspondido". Enquanto os personagens nos filmes europeus do mesmo período se preocupavam com a crise existencial e o vazio das relações modernas, o Cinema Novo apresentava personagens simplesmente tentando existir. "A fome da América Latina não é simplesmente um sintoma alarmante: é a essência da nossa sociedade", escreveu Glauber Rocha em seu manifesto político “Eztétyka da fome” lançado em 1965. "A originalidade do Cinema Novo é a fome dos latino-americanos e nossa maior miséria é que essa a fome é sentida, mas não é compreendida intelectualmente".

Glauber Rocha ajudou a conduzir o Cinema Novo de uma sensibilidade neorrealista da documentação para uma de agitação revolucionária. Seu filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, feito em 1964 quando tinha apenas 24 anos, é um ataque agressivo à convenção usada e vista constantemente no cinema. O longa segue dois camponeses presos em uma série de eventos de violência, primeiro contra o proprietário que privou o homem de um salário honesto, depois seguindo um profeta africano liderando uma rebelião proletária contra a Igreja. O diretor afirmou: "O Cinema Novo ensina que a estética da violência é revolucionária e não primitiva, o momento da violência é o momento em que o colonizador toma consciência da existência dos colonizados. Somente quando ele é confrontado com a violência o colonizador pode entender, através do horror, a força da cultura que ele explora”.

O Cinema Novo é dividido em três fases, após mudanças políticas importantes que ocorrem na sociedade de maneira mais ampla. A primeira fase surgiu durante e continuou logo após o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) e os anos turbulentos dos próximos presidentes Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961-1964), que culminaram no golpe militar de 1964. Após o golpe em 1964, surgiu a segunda fase do movimento, entre 1964 e 1968, onde havia muitas restrições e acredita-se que o movimento perdeu um pouco de sua ideologia por medo das ações do atual governo contra seus filmes e ideologia. Também houve interesse de parte dos cineastas em passar a fazer filmes que agradassem o público geral para atrair maior lucro para as produções, abandonando a “estética da fome” e passando a usar a classe média como meio de análise para o momento atual no país.

Em 1968, o regime militar aprovou uma nova lei que limitou as liberdades em maior extensão do que anteriormente. O ato fechou temporariamente o Congresso, considerado a oposição política radical uma violação da Segurança Nacional e introduziu maior censura.  Essa atmosfera política repressiva levou muitos intelectuais e artistas a se auto-exilarem.  Um dos principais nomes do movimento, Glauber Rocha, deixou o Brasil em 1971 e passou a maior parte do resto de sua vida no exílio. Esse novo regime repressivo fez com que os filmes não pudessem mais ser abertamente políticos. Como resultado, os cineastas desenvolveram inúmeras formas de manipulação artística, como alegorias baseadas em comédia e história, a fim de passar pelos censores.

A partir desse momento, com a crescente censura e a necessidade de maior comercialização, surgiu a terceira fase do Cinema Novo, entre 1968 e 1972, o “Tropicalismo” - uma forma de produção cultural originalmente associada ao trabalho dos músicos Gilberto Gil e Caetano Veloso, nos quais produções culturais estrangeiras são cooptadas por artistas brasileiros para criar e fortalecer produções culturais. A inspiração para esse movimento foi encontrada nos modernistas da década de 1920. A partir desse momento, os filmes começaram a focar mais na textura cultural do Brasil como forma estética mais do que em uma metáfora política. 
Muitos, entre o público e profissionais de cinema, incluindo cineastas, perceberam que os atuais trabalhos contradiziam os ideais iniciais do movimento do Cinema Novo e essa percepção levou a influenciar a nascença de um novo movimento chamado Cinema Marginal, onde os filmes focaram em personagens marginalizados e em problemas sociais, enquanto também se apropriaram de elementos de filmes B. Porém, alguns cineastas do Cinema Novo como Joaquim Pedro de Andrade, ainda defendiam o estado atual do movimento, afirmando que os filmes do momento eram mais relacionáveis à maioria do povo brasileiro.

Chegando ao fim do movimento, Glauber Rocha disse: "O movimento é maior do que qualquer um de nós. Mas os jovens devem saber que não podem ser irresponsáveis quanto ao presente e ao futuro, porque a anarquia de hoje pode ser a escravidão de amanhã. Em pouco tempo, o imperialismo começará a explorar os filmes recém-criados. Se o cinema brasileiro é a palmeira do tropicalismo, é importante que as pessoas que vivenciaram a seca estejam em guarda para garantir que o cinema brasileiro não se torne subdesenvolvido”.

Acredita-se que o movimento chegou de vez ao fim após não existir um grupo de cineastas relacionados ao Cinema Novo e quando o governo brasileiro criou a Embrafilmes, produzindo filmes que ignoravam completamente a ideologia do Cinema Novo.

O legado do Cinema Novo continuou com o já existente Terceiro Cinema, um movimento cinematográfico que aconteceu em diversos países da América Latina e seletos países da África e Ásia com uma ideologia que despreza o neocolonialismo, o sistema capitalista e as convenções de Hollywood.
 

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