O Mestre dos Sonhos, David Lynch

O Mestre dos Sonhos, David Lynch

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- 13/04/2020 11:10:52

 

David Keith Lynch nasceu no dia 20 de Janeiro de 1946 em Missoula, Montana. Lynch foi criado como presbiteriano e estava sempre de mudança com sua família, passando de uma cidade para a outra. Ele afirma que o primeiro filme que ele consegue lembrar de ter assistido em sua infância foi Cavalgada de Paixões (1952). E desde sua juventude, Lynch já expressava interesse em trabalhar com arte, inicialmente com pinturas. Em sua primeira experiência, fez um curso de pintura na Corcoran School of Arts and Design em Washington, D.C, School of the Museum of Fine Arts, onde se deparou com “The Art Spirit”, de Robert Henri, crucial para Lynch definitivamente seguir seu sonho de viver de arte. 

Após se graduar do ensino médio, em 1964, Lynch foi estudar na School of the Museum of Fine Arts em Boston. Após menos de um ano, ele largou os estudos, afirmando não receber inspiração suficiente no local. Lynch, então, decidiu que queria passar três anos viajando pela Europa, com a esperança de poder estudar com o pintor expressionista austríaco Oskar Kokoschka. Mas, ao chegar em Salzburg, o pintor se encontrava indisponível. Com seus planos frustrados, Lynch voltou para os Estados Unidos após passar apenas duas semanas na Europa.

De volta a seu país natal, Lynch teve que trabalhar em diversos empregos de meio período para se sustentar, já que não podia mais contar com o apoio financeiro de seus pais. Porém, Lynch ainda estava determinado que não queria desistir de pintura, então decidiu ir estudar na Pennsylvania Academy of Fine Arts na Philadelphia, onde ficou por dois anos até 1970. Em 1967, se casou com sua primeira esposa, Margaret Reavey, com quem teve sua primeira filha, Jennifer Lynch, nascida em 1968. Com o tempo, Lynch começou a notar que, apesar de amar pintura, essa arte não tinha dois elementos: som e movimento e, inspirado por sua visão, ele criou seus dois primeiros curtas-metragens, Six Men Getting Sick (1967) e The Alphabet (1968), com cerca de quatro minutos cada um e com imagens animadas.

Lynch recebeu uma bolsa equivalente a cinco mil dólares da American Film Institute, valor o qual usou para fazer seu primeiro curta de trinta minutos, The Grandmother (1970), produção a qual pintou o terceiro andar inteiro de sua casa de preto para as filmagens. Seu trabalho foi recebido com grande sucesso em festivais de cinema, o que contribuiu para sua admissão na Center for Advanced Film Studies em Los Angeles, onde teve colegas de classe como Terrence Malick, Tim Hunter e Jeremy Kagan. Em seguida, Lynch se mudou para Los Angeles em 1970, onde mora até os dias de hoje. 

Quando estava desenvolvendo um curta-metragem chamado Gardenback, o projeto conseguiu a atenção de um produtor da 20th Century Fox, que ofereceu cinquenta mil dólares para a produção. Porém, com certas condições, como transformar o projeto em um longa-metragem. Sem concordar com as condições, Lynch rejeitou a oferta. No entanto, seguiu com seu próximo projeto, o qual conseguiu um orçamento de dez mil dólares e que viria a ser seu primeiro longa-metragem lançado, Eraserhead (1977). 

As preparações para o filme começaram em 1972 e tinha uma produção planejada para durar apenas seis semanas. Porém, com diversos problemas de produção, equipe e orçamento, o filme foi finalizado somente após quatro anos de trabalho e foi lançado no verão americano de 1976. A primeira versão do filme tinha 108 minutos de duração, mas, após duras críticas, encurtou o longa para 89 minutos. Um distribuidor independente de filmes de Nova York descobriu a produção de Lynch e passou a exibi-lo em sessões de meia-noite em pequenos cinemas. O filme continuou sendo exibido por dezessete cidades até 1982 e logo se tornou um grande sucesso cult. Lynch começou a ser visto como um aspirante artista do surrealismo e expressionismo e lançou oficialmente sua carreira como cineasta

Um produtor que havia acabo de abrir sua produtora se animou com o trabalho de Lynch em Eraserhead e o sugeriu a adaptar o livro “O Homem Elefante”. Lynch gostou da ideia, pensando que essa poderia ser sua grande chance de entrar no mainstream. As filmagens aconteceram entre 1979 e 1980 com um orçamento de cinco milhões de dólares. O longa foi de grande sucesso e recebeu oito nomeações no Oscar, incluíndo Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator. O filme lucrou na bilheteria um valor cinco vezes maior do que o custo de produção. Como consequência, o sucesso de seu mais novo trabalho abriu diversas portas para a carreira de Lynch.

Lynch recebeu ofertas de Francis Ford Coppola para trabalhar em Ronnie Rocket; ofertas de George Lucas para trabalhar no próximo filme de Star Wars, O Retorno dos Jedi; e ofertas do produtor Dino De Laurentiis para trabalhar em uma adaptação da série de livros Duna. Lynch decidiu aceitar a oferta para trabalhar com a produção de Duna, mas também assinou um pré-contrato paras as continuações, e para os filmes Ronnie Rocket e Veludo Azul. Lynch começou seu trabalho em Duna em 1983 e o filme foi lançado em 1984.

Porém, como não tinha controle artístico e controle no corte final, os produtores modificaram grande parte de seu trabalho. O filme foi mal recebido pela crítica e pelo público, o que colocou sua reputação em risco, assim como seu próximo trabalho. Lynch persistiu e começou a produção de Veludo Azul, mas, dessa vez, pagou para poder ter total controle artístico sobre a produção. As filmagens aconteceram em 1986 e o filme lançado em 1987. 

Apesar de não ter tido grande público, o filme se tornou um clássico cult que restaurou a reputação do Lynch como diretor e o respeito por sua visão artística. Após Veludo Azul, Lynch retomou o trabalho com a pintura e exibiu seus trabalhos de 1987 à 1989 em diversas galerias na Philadelphia, Nova York e Los Angeles. Ao mesmo tempo, Lynch estava fazendo diversos trabalhos artísticos, como o design do Rossellini Award, trabalhando no quadrinho The Angriest Dog in the World lançado no Los Angeles Reader e em outros jornais. Além disso, em 1987, recebeu a oferta de um produtor francês para fazer um curta-metragem na França, projeto que originou a produção The Cowboy and the Frenchmen.

Em 1986, Lynch conheceu Mark Frost, com quem formou uma parceria co-escrevendo roteiros. O primeiro projeto da dupla foi a série Twin Peaks (1990), exibido no canal americano ABC, e a primeira temporada foi considerada um sucesso. A série foi renovada para uma segunda temporada mais longa, porém, ao final da temporada, Twin Peaks foi cancelada por baixa audiência. A dupla ainda fez mais uma série, em 1992, para a ABC, chamada On The Air, cancelada com apenas três episódios exibidos. Lynch também trabalhou em uma minissérie antológica para a HBO chamada Hotel Room, lançada em 1993. 

Em 1990, Lynch escreveu e dirigiu o filme Coração Selvagem, com Nicolas Cage e Laura Dern. O longa foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1990 e, apesar de não ter sido bem recebido pela crítica e pelo público na época, o filme passou a ser melhor recebido pela crítica com o passar dos anos. Seu filme seguido foi um prequel para a série de Twin Peaks, chamado Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer, lançado no Festival de Cannes em 1992. O filme recebeu duras críticas do público e da crítica e Lynch admitiu que ele “matou” Twin Peaks.

Depois disso, Lynch passou a ser considerado um risco pela indústria e não foi mais confiado com grandes projetos. Sem conseguir trabalhar em um novo filme e se encontrando em uma má situação financeira, Lynch passou a dirigir diversos comerciais de televisão para empresas de moda e voltou a trabalhar como pintor. Além disso, produziu o álbum The Voice of Love, de Julee Cruise com Angelo Badalamenti, compositor que também estava compondo as trilhas dos trabalhos de Lynch. Com um roteiro pronto co-escrito por Robert Engels, Lynch procurava investidores para o seu próximo projeto, Dream of the Bovine, porém, sem sucesso, o projeto não aconteceu.

Seu próximo filme foi Estrada Perdida (1997). A ideia para o filme surgiu após ler a frase “lost highway” no livro Night People, de Barry Gifford, com quem ele co-escreveu o roteiro original para o longa-metragem. O roteiro ficou pronto em Março de 1995 e logo recebeu um investimento de quinze milhões de dólares para começar as filmagens no outono americano do mesmo ano. O filme teve sua estreia em 1997 e foi recebido com críticas positivas. Logo em 1999, Lynch já estava lançando o seu próximo longa, Uma História Real, também recebido de forma positiva, mas deixou o público curioso e surpreso por ser inesperadamente o primeiro trabalho do cineasta sem nenhuma espécie de quebra-cabeça, violência ou toque surrealista e expressionista. 

Ainda em 1999, Lynch começou a escreveu uma nova série de televisão para a ABC, mas, sem sucesso, transformou o projeto em seu próximo filme. Cidade dos Sonhos (2001) foi um de seus trabalhos de mais sucesso e o consagrou com um prêmio de Melhor Diretor em Cannes e uma nomeação no Oscar de 2002 na categoria de Melhor Diretor.

A partir dali, Lynch focou em diversos tipos de projetos. Ainda em 2001, lançou o seu próprio website www.davidlynch.com, onde postou alguns de seus trabalhos com curtas animados e séries surrealistas. Em 2002, foi nomeado Presidente do Júri do Festival de Cannes daquele ano. Em 2005, lançou a fundação David Lynch Foundation for Consciousness Based Education and World Peace baseado em uma técnica de meditação transcendental que ele praticava desde os anos 70. 

Em 2006, Lynch dirigiu o, até então, último filme de sua carreira, Império dos Sonhos, projeto o qual ele também foi diretor de fotografia e editor. O filme recebeu reações positivas, mas também reações polarizantes da crítica e do público, por ser um dos seus trabalhos surrealistas mais desafiadores de se entender. No ano seguinte, participou de uma turnê com o cantor de folk Donovan fazendo uma campanha para “universidades invencíveis” e recebeu o título de Oficial da Legião de Honra pelo Presidente da França. No mesmo ano, 2007, em Paris, a fundação Fondation Cartier pour l’Art Contemporain fez a maior exibição de trabalhos de David Lynch até o momento, com mais de 800 peças de trabalhos como pinturas, desenhos, gráficos, curtas, entre outros. 

Em 2009, Lynch lançou online o canal David Lynch Foundation Television para celebrar criatividade e felicidade. O diretor continuou focando em projetos diferentes, lançando seus próprios álbuns musicais, dirigindo videoclipes de outros artistas, trabalhando com sound design, escrevendo livros e fazendo participações também como ator. No entanto, seu último grande trabalho como diretor aconteceu em 2017, no retorno da série Twin Peaks, com uma temporada única para continuar a história original que foi interrompida por seu cancelamento.

Na nova temporada, Lynch co-escreveu e dirigiu todos os dezoito episódios, e foi recebido com grande aclamação da crítica e de seu público fiel. A terceira temporada de Twin Peaks foi considerada um dos trabalhos mais inovadores e artísticos já lançado na história da televisão, com episódios surrealistas que ninguém imaginou que poderia ser exibido por um canal de televisão anteriormente. 

Em 2019, Lynch recebeu o prêmio honorário do Oscar, que também foi o primeiro Oscar de sua carreira. No dia de seu último aniversário, em 20 de Janeiro de 2020, ao completar 74 anos, Lynch celebrou a nova idade com o lançamento de um novo curta-metragem chamado “What Did Jack Do?”, lançado pela plataforma de streaming Netflix. O próprio cineasta estrela o curta entrevistando um macaco sobre um possível crime. O filme foi recebido de braços aberto por ser mais um grande símbolo da sua visão única em seus trabalhos, mais uma arte “Lynchiana”.

Hoje, David Lynch é considerado o maior, mais popular e bem-sucedido mestre da arte surrealista moderna, com uma grande legião de fãs seguindo seus trabalhos e se tornando uma das maiores influências atuais no gênero surreal. 

 

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