O Incompreendido

O Incompreendido

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Blog - Artigos
- 07/02/2020 10:21:43


François Roland Truffaut nasceu em Paris, França, em 6 de fevereiro de 1932, e seu primeiro contato com o cinema ocorreu aos oito anos de idade. O primeiro filme que assistiu foi “Paradis perdu” (1939), de Abel Gance. Truffaut foi ao cinema escondido, após escapar da aula da escola e não pagou por sua entrada. Aos quatorze anos, depois de abandonar sucessivamente várias escolas, ele decidiu ser autodidata. Da escola, a única coisa recuperada foi um de seus colegas, Robert Lachenay, que se tornou seu melhor amigo. Então, começou seu aprendizado sobre cinema e literatura. Truffaut tentou ver três filmes por dia e ler três livros por semana. Foi frequentador dos encontros da Techniciens du film, e para ele, sua grande escola era a Cinémathèque que Henri Langlois reabriu em dezembro de 1944. Em outubro de 1948, ele mesmo criou um clube de cinema, o Cercle Cinémanie, usando dinheiro obtido por trabalhar em uma mercearia. Truffaut teve que roubar uma máquina de escrever do escritório de seu pai para cobrir o custo das primeiras exibições, que aconteciam aos domingos em um teatro alugado.

Em certo momento, as exibições da Cercle Cinémanie acabaram coincidindo com as exibições do clube de cinema Travail et Culture, apresentado por André Bazin, a quem Truffaut decidiu visitar para convencê-lo a reagendar as exibições do outro clubo. E assim, em 30 de novembro de 1948, Truffaut, de dezesseis anos, conheceu Bazin, que até então era crítico do Le Parisien libéré e já era uma espécie de celebridade aos 30 anos de idade. Dias depois, o padrasto de Truffaut concordou em cobrir dívidas derivadas de seus compromissos cinéfilos, contanto que François prometesse, por escrito, obter um emprego estável e abandonar o seu clube.

Porém, seu cineclube já tinha outras três exibições confirmadas e François continuou determinado com seu trabalho. Por causa disso, seu padrasto o colocou sob custódia da polícia, citando a promessa quebrada por Truffaut. Por isso, ele foi trancafiado e dormiu em uma pequena cela na delegacia e de lá passou para a sede da polícia, onde foi enviado depois para o centro juvenil parisiense de Villejuif. Lá, o psicólogo contatou Bazin para pedir ajuda ao jovem Truffaut e Bazin prometeu lhe dar um trabalho dentro da Travail et Culture. Truffaut obteve liberdade condicional para ser internado em um lar religioso em Versalhes, de onde foi expulso seis meses depois devido a um mau comportamento.


Bazin o contratou como secretário pessoal e, aos dezoito anos, Truffaut obteve a emancipação legal de seus pais e, finalmente, sua independência. Bazin o apresentou à sociedade cinematográfica Objectif 49, um grupo de elite que se tornaria o fórum para novas críticas e o lugar onde diretores como Welles, Rossellini e Sturges apresentariam seu trabalho. Mais tarde, Jean-Luc Godard, Suzanne Schiffman e Jean-Marie Straub se juntaram ao grupo e se dedicaram a não perder uma única sessão de qualquer reunião do clube. As quintas faziam uma visita ao Ciné club du Quartier Latin, coordenado por Eric Rohmer. E neste clube de cinema, Truffaut daria seus primeiros passos como crítico na primavera de 1950. Seu primeiro artigo foi sobre “Le Règle de jeu” (1939), de Jean Renoir, após a recente descoberta da versão original do filme.


Em Abril de 1951, seria fundado a revista Cahiers du Cinéma por Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca, com o propósito de publicar críticas de filmes. Truffaut começou a trabalhar escrevendo para a revista e teve seu primeiro artigo publicado em 1953. Em 1954, Truffaut publicou o seu grande artigo que trouxe todas as atenções para si, intitulado “Uma Certa Tendência no Cinema Francês”, na qual ele denunciava a “tradição da qualidade”, um termo que Jean-Pierre Barrot havia descrito em L’Écran Français e que se referia à inclinação de diretores como Claude Autant-Lara, Jean Delannoy e Yves Allégret para adaptações literárias, e o trabalho de roteiristas como Jean Aurenche e Pierre Bost. Imediatamente as opiniões foram divididas e polarizadas, ao mesmo tempo em que defendiam e criticavam essa juventude que ousava atacar os intocáveis ​​do cinema francês.


No artigo, Truffaut observou: “Inventar sem traição é a frase chave que Aurenche e Bost gostam de citar, esquecendo que também é possível trair por omissão. Esse princípio enunciativo mais importante do sistema de Aurenche e Bost é tão atraente que ninguém se preocupou em verificar atentamente sua operação.” Em seis anos Truffaut publicaria 170 artigos nesta revista, principalmente resenhas de filmes e entrevistas com diretores.

Ainda no mesmo ano, Truffaut foi contactado pelos editores da revista Arts-Lettres-Spectacles, lar dos intelectuais de direita da época. Nos cinco anos que se seguiram, Truffaut publicaria mais 528 artigos para essa revista, nos quais continuou a atacar a tradição convencional de qualidade e atacou intelectuais de esquerda. Seu estilo era polêmico e moralizador, e também uma mistura de veemência e humor. Quando os elogios eram solicitados, ele também era generoso, particularmente com diretores que tinham o seu afeto.

Nesses anos de trabalho como crítico, chegou a ganhar alguns inimigos, mas seu trabalho também trazia algumas amizades. Truffaut tornou-se amigo de Renoir, Max Ophuls e de Roberto Rossellini, para quem Truffaut escrevia roteiros e ajudava na adaptação de vários projetos que, embora não ocorressem, o marcariam permanentemente.

Com o acúmulo de conhecimento cinematográfico, Truffaut deu seu primeiro passo para se tornar um cineasta. Em 1955, comandou o curta “Une Visite”, que, para seu descontentamento, Truffaut acabou decidindo engavetar as filmagens, sem nenhuma exibição. Porém, em 1957, fez sua primeira produção de sucesso, dirigindo o curta “Les Mistons”, baseado no conto de Maurice Pons. Depois de receber boas críticas, Truffaut ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival du Film Mondial em Bruxelas.

Com investimentos vindo de seu sogro, Truffaut assegurou o financiamento de um novo projeto, baseado em suas experiências da infância e adolescência, assim nasceu “The 400 Blows” (Os Incompreendidos). Para interpretar o papel principal, um anúncio foi feito na France-soir e um jovem de quatorze anos chamado Jean-Pierre Leaud foi escolhido, ele era instável e um estudante ruim. As filmagens começaram na manhã do dia 10 de novembro de 1958, na mesma noite em que André Bazin faleceu de leucemia. Em abril do ano seguinte, o filme foi selecionado para ser exibido em Cannes, onde Truffaut ganhou o prêmio de melhor diretor.

“The 400 Blows” logo se tornou de grande sucesso de crítica e público. Truffaut pouco sabia que seu primeiro filme se tornaria uma das principais obras de um dos mais importantes movimentos cinematográficos. Além disso, foi considerados, nas décadas a seguir, um dos melhores filmes da história do cinema mundial.

Após o sucesso de seu primeiro filme, Truffaut seguiu os próximos 25 anos de sua vida mantendo uma das carreiras mais bem sucedidas do cinema, lançando novos grandes sucessos como “Jules Et Jim” (1962), a aclamada adaptação de “Fahrenheit 451”(1966) e o inovador “Day for Night” (1973), filme o qual o consagraria com um Oscar. Truffaut ainda fez quatro sequências para o personagem central de “The 400 Blows”. Em seus 25 anos de carreira, chegou a comandar mais de 20 produções.



Infelizmente uma das carreiras de maior sucesso do cinema mundial seria interrompida por conta de saúde. Em Julho de 1983, Truffaut teve seu primeiro derrame e foi diagnosticado com um tumor no cérebro, falecendo no ano seguinte, no dia 21 de Outubro de 1984 aos 52 anos de idade.
Na época de sua morte, ele ainda tinha vários filmes em preparação. Seu objetivo era fazer 30 filmes e depois se aposentar para escrever livros para o resto de sua vida.

Apesar de sua vida e carreira terem sido interrompidas de forma infortuna, Truffaut deixou um legado que ajudou a mudar o curso do cinema e influenciou centenas de cineastas, filmes e movimentos que surgiram nas décadas seguintes. Truffaut foi um cineasta que entregou sua alma para seus filmes e tocou a alma de todos aqueles que admiravam o seu trabalho, fazendo com que seu nome ficasse gravado para sempre no coração e na memória de todos que foram marcados por seus filmes e suas histórias.

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